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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Uma ajudinha para vocês... - Parte 1


A todos e a todas, um bom dia.
Hoje decidi fazer algo a respeito da dificuldade em produzir textos. Adianto que o que eu sei, quanto aos textos escritos, aprendi empiricamente. Modéstia à parte, sei o que sei por natismo, talvez não me compreendam bem por agora, mas na medida em que observarem os textos que tratei como exemplo, bem como as próprias explicações que postarei sobre os gêneros que serão abordados.
Nessa primeira postagem selecionei o gênero "Resumo". Adianto que vocês, caros e caras leitores e leitoras, poderão sugerir os próximos gêneros. Tenho alguns selecionados, desde gêneros narrativos, dando um salto pelos jornalísticos, mergulhando nos dissertativos, sendo todos na área acadêmica. Claro que com o tempo você verão que eu tenho mais habilidade com os gêneros mais narrativos do que com qualquer outro, mas irei me esforçar para ajudá-los com as minhas competências em escrita. Pois bem, iniciemos com o diálogo de hoje.

RESUMO:
Para iniciarmos, eu já vou logo dando um dica de livro para você que vai querer dá uma estudadinha por fora, mesmo que não acompanhe esse nova série do Letras em Foco ou não tenha a oportunidade de cursar disciplinas ou cursos a respeito. Ele pertence a uma coletânea de livros, sobre alguns gêneros acadêmicos, "Leitura e Produção de Textos Técnicos e Acadêmicos", editados pela Parábola, de autoria de Anna Rachel Machado, Eliane Lousada e Lilia Santos Abreu.Possui uma linguagem de fácil acesso e é um livro de fácil manuseio. Eu mesma o adquiri, então garanto que não será uma leitura perdida.
Como esse é o primeiro poste, vou abordar aqui a primeira característica do resumo, talvez a maior dificuldade de todos aqueles que tentam escrevê-lo. A "suncintez" (nem sei se a palavra existe). Que quero dizer com isso, você se pergunta. Nessa modalidade de texto é preciso dizer-se o essencial com poucas palavras, ou seja, "falar pouco, mas falar bonito". O resumo pede que seu autor seja direto naquilo que deseja repassar aos seus leitores.

Exemplo:
Existe uma grande diferença entre: "Certa vez, uma bela criança, que desejava se divertir com seus pueris amigos numa verdejante pracinha que havia em frente a sua casa, esta de muitas janelas, mas poucas portas, atravessou a rua carregando em seus delicados braços de criança uma bola. Por desventura e azar do destino, a bola caíra dos braços do menino e este parou a carreira para apanhá-la, e neste momento ocorreu a tragédia: um carro, que por desgovernamento ou insensatez, Deus saberá a razão, atingi o pobre menino indefeso, fazendo-o se machucar seriamente" e "Um menino foi atravessar a rua para brincar com os colegas e acabou sendo atropelado porque derrubou a bola".

Notem: 
O primeiro enunciado apresentado é o que eu costumo chamar de "estar ipsis literis", enquanto o segundo em destaque é o seu resumo. Algumas informações foram ressaltadas em detrimento de outras. 
    1) O fato aconteceu com uma única criança do sexo masculino (menino);
    2) Tratou-se de um acidente (atropelamento);
    3) O motivo de o fato ter ocorrido, a causa (a queda da bola);
    4) A motivação da criança para dar início ao evento (brincar com os amigos).

Muitos dos outros detalhes foram suprimidos por ter caráter secundário mediante aquilo que realmente é importante. Penso eu que o Gênero Resumo é um pouco pessoal, e isso por que? Bem, imaginem que cada cabeça é uma sentença e que portanto nem tudo será igual em cada caso. Aplicado ao resumo, algumas informações serão importantes para uns e para outros não. Para ajudar nessa angústia que virá a acontecer, é importante que o leitor tenha um olho clínico: que partes são realmente relevantes para a compreensão total do texto? Quais não são? Um bom exercício para se conquistar esse "nível de olho" é a prática do fichamento: destaque as partes mais importantes de todo texto que você chegar a ler e depois procure comentar algumas delas, de modo a perceber o valor semântico daquilo para a obra.

Na próxima postagem, estarei abordando os aspectos essenciais do Resumo.
Comentem sobre o que acharam dessa postagem. Preciso saber se me estou fazendo ser entendida ou não e para isso os comentários de vocês serão valorosos.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mudando de ares: Filologia


Resenha sobre a Reportagem da revista Superinteressante¹ de 1990

É complicado se trabalhar com certas áreas históricas em vista da pouca quantidade de dados que tais garantem aos seus pesquisadores. A Filologia, ainda que seja uma ciência inteiramente voltada para a linguagem, se envolve com a História tal como se envolve com outras ciências, como a Psicologia e a Antropologia. Para tanto, sabe-se que documentos oficiais, principal objeto de estudos, perderam-se com o tempo de acordo com as situações em que se envolviam. Pensando desta forma, consegue-se entender o quanto complicada é a busca pela árvore genealógica que muitas vezes a Filologia se presta com o apoio da Linguística Histórica.
Um dos trabalhos da Linguística do século passado, o mais importante de todos eles, era encontrar a mãe das línguas, ou pelo menos algum parentesco, através da comparação entre línguas semelhantes. Desta forma descobriram-se as línguas românicas, isto é, línguas que possuem uma mesma raiz comum: o latim. Bem como outras famílias linguísticas surgiram na medida em que as comparações ganhavam concretude. As “proto-famílias” (por que não dizer “as superfamílias”) também se tornaram alvos para os linguistas a partir do momento que eles perceberam que as famílias linguísticas possuíam certo grau de semelhança, ao se observarem certos grupos de vocábulos e seus significados. Talvez umas das ânsias dos linguistas fosse comprovar o mito da Torre de Babel, em que todos os homens falavam a mesma língua e, para demonstrar a superioridade humana, criaram uma torre que pudesse alcançar o céu. Deus, para “castigar” a pretensão do homem, destruiu a torre e com ela a língua original, fazendo com todos os homens passassem a falar línguas diferentes. Mas surge o questionamento: qual o interesse da Filologia nessa investigação histórica?
Realmente é uma pergunta pertinente e a resposta é ainda mais pertinente. Para uma ciência que estuda a cultura e o comportamento dos povos através dos escritos deixados por eles, seria bastante conveniente conhecer a origem de todas as línguas, por mais utópico que possa parecer. O ato de conhecer a gênesis linguística ajuda o filólogo a entender os processos culturais que modificaram e distanciaram, ou não, a língua-mãe de suas “filhas e netas”. No entanto, há um porém, talvez o mais sutil e definidor de todos: muitas vezes as evidências genealógicas entre línguas remotamente aparentadas são escassas, ou seja, os linguísticas históricos se valem de algumas poucas palavras na busca do sang’real, isto é, o sangue real. Sabe-se que do contato de uma língua com outra, pode ocorrer da primeira tomar para si expressões da segunda e vice-versa. Qual seria a prova, então, de que ambas são parentes? Nem sempre a semelhança de alguns vocábulos indicará um verdadeiro grau de parentesco.
A reportagem publicada na revista Superinteressante, intitulada “Antes da Torre de Babel” vem relatar tais constatações já abordadas ao longo do texto. No terceiro parágrafo, na seção Português é aparentado até com o sânscrito, é relatado: [...] “3 mil línguas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Essas, mais outras milhares já esquecidas que deixaram algum tipo de registro escrito, foram agrupadas em doze² famílias linguísticas importantes e cinquenta menos importantes.” Nesse pequeno trecho, mas bastante esclarecedor, nota-se o nível de dificuldade que linguistas históricos de todo o mundo enfrentam ao longo de seus estudos. Se supusermos que cada língua possui em torno de 5.000 verbetes, cada qual com seus significados e etimologias próprias, teremos 15.000.000 milhões de palavras oficialmente catalogadas para serem comparadas, sem estar levando em conta os dialetos e as línguas ditas mortas³ (a exemplo o latim).
Tamanho trabalho árduo gera frutos mínimos observando tais números, mesmo que supostos. Comparar línguas, encontrar nelas reminiscências de outra, e nesta se deparar com resquícios, e para fim encontrar nestes sopros ou ecos de um passado de difícil acesso de uma língua. É de semelhante dificuldade que os paleontólogos partilham ao encontrarem o osso da ponta da cauda de um gigantesco brontossauro (um dos dinossauros de maior comprimento de que se tem notícia).
Na reportagem mencionada, logo de cara nos deparamos com um fato comprovado: essa investigação não é algo oriundo dos tempos modernos. Bem antes do nascimento de Cristo, um faraó já refletia sobre a língua dos homens. As mais bizarras experiências foram feitas para tentar descobrir qual era a língua dos primórdios. Bebês eram criados sem nenhum contato social e verbal, se preciso fosse o suprimento alimentício seria cortado para que eles fossem instigados a usar a língua original. No entanto, ao que consta, foi um fiasco. Mas o desejo de descobrir a “avó” de todas as mães de todas as línguas resistiu ao tempo e as experiências com crianças. Chegou aos tempos modernos e com eles encontrou novos meios de estudar as similaridades que as línguas tinham entre si, assim dando início a Linguística Histórica e realçando os interesses da Filologia.
Um dos pontos que ponho em cheque nesse momento final do texto, talvez culminante para toda a minha argumentação, são os justos exemplos dados ao fim da reportagem. Aqui cito o parágrafo:

Uma delas é a incrível semelhança de palavras entre as línguas indígenas da América pré-colombiana e idiomas falados pelos povos do Mediterrâneo e Oriente Médio. Por exemplo, os índios araucanos do Chile usam a mesma palavra que os antigos egípcios, anta, para designar o Sol e a mesma palavra que os antigos sumérios, bal, para machado. A palavra araucana para cidade é kar, semelhante a cidade em fenício, que é kart. (SUPERINTERESSANTE, pg.??, 1990)

Os linguistas, bem como os filólogos, trabalham com muito pouco para dizer tanto. Não afirmo que seja um trabalho em vão, que tais estudos não levarão a lugar algum, no entanto já se percebeu que as famílias e as proto-famílias não são realmente línguas concretas: na verdade são suposições das originais, posto que não haja documentos escritos em tais línguas. É preciso tomar cuidado, pois uma língua possuir palavras semelhantes, ou de mesmos significados, ou mesmo idênticas a outras não significará propriamente que sejam irmãs, primas, netas, filhas ou mães.






¹  Número da revista não identificado, bem como o mês de publicação
²No texto original se encontra “dose”, mas para ajudar na compreensão a correção foi feita.
³Uma língua morta não significa que não é mais usada. Na verdade é uma língua que não é mais falada pelo povo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Mudando de ares: mais um pouco de Linguística...


TROCANDO EM MIÚDOS COM O FORMALISMO

Francisca Ayanny Pereira Costa¹

Ferdinand de Saussure
Antes de se saltar diretamente para a Linguística Científica, vale ressaltar que essa só veio a ser uma ciência propriamente dita depois dos esforços, sendo que nenhum fora em vão, de Ferdinand de Saussure. Este estudioso voltou seu olhar para uma única, por assim colocar, missão: tornar a Linguística uma área das ciências modernas. Para tanto buscou definir os dois principais pré-requisitos para uma disciplina tornar-se científica: o objeto e o método.
O primeiro dos dois requisitos, nós podemos entregar os créditos da delimitação para Saussure, visto que, apesar de não ter sido o pioneiro, foi o que iluminou o caminho para muitos que viriam a seguir. Sabendo que a linguagem compõe-se do discurso, seja este falado seja escrito, Saussure teve que tomar a difícil decisão de objetivar a linha de estudos da Linguística. Pelo o que se constava, na linguagem havia duas vertentes, surgindo assim uma de suas famosas dicotomias, ou se trabalharia com a fala, ou se trabalharia com a língua.
Saussure optou pela segunda por razões, por assim colocar, convenientemente seguras e lógicas. Em oposição à fala, a língua possuía quatro características que a tornavam perfeita para ser o objeto da Linguística científica, citando-as: abstrata, social, homogênea e é um sistema. Observemos por parte então. A primeira delas é que a língua não se constitui de um conjunto de processos fisiológicos como a fala (o ato de emitir sons, de recebê-los, transformá-los em impulsos elétricos e enviá-los ao cérebro), trata-se de uma atividade cognitiva, isto é, da consciência construída por todo homem com interações sociais. Analisando desta forma, independente do idioma aprendido, todo ser humano acaba por adquirir a língua, ou uma língua.
Visto que a consciência pode ser considerada fruto de uma interação social, e que linguagem é, talvez, uma consequência dessa interação, a língua torna-se social. Para melhor explicar, tomemos um exemplo: todos, por mais extrema que seja a região, que moram no Brasil falam o português brasileiro. Um falante que mora em Chorozinho, Ceará, é compreendido por um falante que mora em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, ou no Arquipélago de Fernando de Noronha, e isso se dá porque para ambos os moradores a língua é mesma, ainda que regionalismos existam. Há algo de comum para todos os habitantes de uma nação e isso torna o estudo da língua mais viável para Saussure, ao invés de estudar cada forma individual de falar. Pensando dessa forma entende-se a homogeneidade da língua, isto é, uma língua única para todos.
No entanto, para podermos mergulhar realmente no formalismo, o que nos interessa é a última particularidade da língua observada por Saussure: o fato de a língua constituir-se de um sistema. Se para todos os praticantes do português brasileiro há uma unanimidade, garantindo a compreensão e sociabilidade entre os mesmos, significa que existe um conjunto de aspectos abstratos, e então adquirido por eles, que sustenta essa unanimidade. Há esse ponto em comum que Saussure chama de “sistema”. Falo de um conjunto de regras que regem o uso da língua, isto é, a fala. Poderíamos denominar de duas maneiras esse conjunto: o nosso dicionário e a nossa gramática mental. O dicionário para o uso das palavras de acordo com seus significados, ou seja, o conteúdo. A gramática, principalmente, para a construção dos enunciados, ou seja, a forma.
É nesse ponto que entra o já citado Formalismo, como já está no próprio nome, se volta justamente para a “forma do sistema”. Talvez por ter Saussure como seu precursor, as dualidades também se apresentaram nesse nível dos estudos linguísticos. Como antes, vamos por parte. O primeiro modelo formalista de estudos da linguagem enformado foi Estruturalismo. Igualmente ao Formalismo, o que este modelo trata está no próprio nome: a estrutura da língua, que não deixa de ser sinônimo, neste caso, de forma. Teve suas importâncias para a Linguística Científica e aqui cito duas julgadas por muitos como decisivas.
Leonard Bloomfield
Primeiramente, o caráter epistemológico foi levado em conta. Analisar o objeto a partir de sua raiz, nesse caso, seria a construção das sentenças, relevando as relações que os termos usados criam entre si (determinante e determinado). Mas vale lembrar que, como postulava Bloomfield, não se considerava a linguagem uma capacidade inerente ao homem, isto é, o ser humano aprendia ao longo de sua convivência com o meio (pessoas e ambientes) e com as respostas que recebia de seus estímulos. Bloomfield apoiava-se na teoria behaviorista para explicar o processo de aquisição da linguagem. Em suma, o homem constrói a partir do que recebeu.
Por conseguinte, observa-se o caráter metodológico. Sabendo que é importante observar as relações que os termos sustentam entre si, é preciso conhecer como elas se dão, estruturalmente pensando. Nos é apresentado o princípio da comutação. Os constituintes são analisados a partir de sua localização na estrutura e de seu comportamento para com ela, deixando de lado o conceito tradicional, criando-se a Gramática de Constituintes. Tomemos um exemplo para tanto: o adjetivo deixar de ser a palavra que caracteriza o ser, e se torna, pela posição, a palavra que acompanha o substantivo, e pela função, o agente determinante do sujeito ou do próprio substantivo. Se assim não for, a palavra perde sua caracterização como “adjetivo” e passa a ser outra coisa. Desta forma pode-se observar cada estrutura e dividi-la em seus dois constituintes, repetindo o processo nos termos que surgirem, por conseguinte.
Pode parecer conveniente, mas para um estudioso chamado Noam Chomsky problemas se evidenciaram ao se trabalhar com uma gramática de constituintes. Chomsky percebeu que se analisando, pelo princípio da comutação, cada sentença era uma sentença específica e que não se repetia em outros casos. Então como explicar orações escritas de maneiras diferentes, mas que expressavam a mesma coisa? (Comi o bolo/O bolo foi comido por mim) Não deveria haver semelhante estrutura, posto que as sentenças expressem o mesmo significado? E quanto às sentenças que expressem mais de um significado, ou seja, as ambiguidades? (A cachorra da vizinha espiou-me pelas brechas) Terei uma estrutura ou duas? Chomsky percebeu que a Gramática de Constituintes precisava ser aperfeiçoada a fim de responder estas perguntas.
Noam Chomsky
O outro lado da moeda formalista passa a ser conhecida: o gerativismo de Noam Chomsky. O sistema e o seu uso recebem novas denominação, com algumas alterações quanto ao conceito: "língua" passa a ser competência, visto que a língua, para Saussure, era algo social e para Chomsky, e é aqui em que os conceitos se diferem, a competência (o sistema) é algo interno ao homem, portanto, inerente, e compartilhado por ele com os indivíduos. O uso passa a ser  o desempenho, ou performance, talvez por não ser foco de estudo de ambos os autores, ainda mantém o mesmo conceito para Saussure e para Chomsky. Basta lembrar-se do Enem: competência se refere àquilo que se deseja que o aluno tenha ao fazer sua redação e o desempenho poderia ser o ato de escrever em si. Tal como todos os seus precursores, Chomsky prefere a competência ao desempenho. Os motivos já foram mais do que abordados: trata-se do sistema e este é social, homogêneo e abstrato. Mas não é apenas nessa sutil troca que o gerativismo se difere do estruturalismo.
Sabe-se que Bloomfield acreditava que o homem era, tal como afirmava John Locke, uma tábua rasa, nascia sem absolutamente nada, mas Chomsky já pensava o contrário. Se uma criança consegue criar incontáveis frases a partir de poucos vocábulos oferecidos aleatoriamente, por exemplo, casa/bonita/amarela/papai/a/o/de/morar/ser, muitas destas frases nunca pronunciadas por aqueles que compõem o meio da criança, pode-se dizer que esta mesma criança possui alguma “coisa” que a permite receber sentenças, quebrá-las e reconstruí-las de acordo com a sua vontade.  Chomsky supunha que este mesmo meio em que essa suposta criança está inserida não possui “informações” suficientes para que ela forme estruturas complexas, como “A casa amarela de papai é bonita” na qual a coesão de gênero e de número é mantida. A esta insuficiência de informações, Chomsky chamou de “O argumento da pobreza de estímulos”, bem direto por sinal.
Para justificar casos como estes, o linguista afirmou existir um dispositivo inato ao homem responsável por esse “cardápio vasto” de estruturas que uma criança poderia ter. Chomsky refere-se justamente a capacidade humana de se adquiri uma linguagem, independente da língua, o “patenteado” Dispositivo de Aquisição da Linguagem, ou Language Acquisition Device (LAD), que se assemelha a uma linha de montagem: o indivíduo recebe as peças e vai recombinando-as de acordo com sua necessidade expressiva. Quem assim conhece, afirmar que o papel do meio para a aprendizagem fora descartado, no entanto nãoé bem assim que Chomsky propõe. Se não há o meio para oferecer “as peças” para indivíduo, não há como ele adquirir quaisquer línguas, ou seja, o meio tem a sua importância, mas não é o centro. Isto é, uma criança não nasceria sabendo que língua ela vai falar quando puder, na verdade é preciso que os pais a ensine e que um professor específico a ajude a desenvolver suas capacidades linguísticas. Assim propunha Chomsky em sua Teoria Gerativista.


POR NONA AY


¹Texto feito pela aluna para a disciplina de Linguística III: Morfossintaxe, ministrada pelo Prof. Tiago Gil no dia 04 de abril de 2013 para o 3º semestre do curso de Letras, da URCA - Universidade Regional do Cariri.

Mudando de ares: um pouco de Linguística


SOBRE A GRAMÁTICA TRADICIONALISTA, OU TRADICIONAL, AINDA MAIS, CLÁSSICA.

Francisca Ayanny Pereira Costa¹

No início, muito antes desta disciplina se chamar “Linguística”, os estudos voltados para a linguagem não eram propriamente gramaticais. Vale lembrar que tais estudos têm suas origens na Grécia Antiga, com os filósofos clássicos. Pode-se considerar que o primeiro passo dado rumo aos debates propriamente linguísticos foi dado por Platão, quando escreveu “Crátilo”, obra na qual ele começa a questionar a gêneses da linguagem humana. A pergunta que permeia tal trabalho é se trataria de um acontecimento natural ou seria convenção do homem. No trabalho, Platão se convence de que originalmente a linguagem era natural, e com o passar do tempo, em vista das influências dos meios e da reflexão sobre todas as coisas, convencionou-se.
Outro filósofo que voltou alguns de seus estudos para âmbito da linguagem foi Aristóteles. Diferentemente de Platão, que mantinha as discussões no domínio ideológico, Aristóteles trouxe-as para o campo do discurso. Este último estudou a construção do pensamento. Para ele, os conceitos, referente à nossa percepção do mundo, são palavras com significados próprios, os juízos são julgamentos formados a partir dos conceitos e por fim o raciocínio, mantendo a mesma linha de pensamento, é a união dos juízos.
Por estar trabalhando com a classificação das palavras no latim, Aristóteles observava cada termo de acordo com o seu significado, que posteriormente foram criadas dois tipos gramáticas baseadas nesse modelo de trabalho. Como havia o desejo mútuo de preservar a língua dos grandes escritores, isto é, o latim, as primeiras gramáticas propriamente ditas foram baseadas no significado e na pronúncia das palavras. Respectivamente, a primeira era para os falantes aprenderem a norma culta da escrita latina, enquanto a segunda servia para aqueles que queriam aprender a falar latim, mas não eram gregos. Mesmo com finalidades diferentes, ambas as gramáticas eram tradicionais, pois visavam manter o latim como língua primordial.
Dionísio da Trassa, outro filósofo de trabalhos provavelmente posteriores aos de Aristóteles, deu seguimento aos estudos do último, dando melhor forma. Percebeu-se, então, que essa gramática iniciada por Aristóteles e continuada por Dionísio possuía quatro importantes atributos. O primeiro refere-se a sua origem. Como já fora mencionada, as primeiras discussões a respeito da linguagem partiram dos filósofos, tal como a atitude de “montar” a primeira gramática. Assim posto, consideramos que a gramática tradicional é filosófica.
Por Aristóteles ainda ter mantido a associação da palavra com aquilo que ela representa no mundo real, já pregado por Platão, dizemos que a gramática tradicional é semântica. Isto é, ela primordialmente trabalha com os significados dos termos usados. Para efeito de exemplo tem-se a definição de substantivo ensinada nas escolas nas séries iniciais: a palavra que nomeia o ser. A criança deve conhecer primeiramente o que são os seres para só então poder aplicar a ação de nomeá-los, ou seja, ela deve ir ao mundo real para entender algo da linguagem.
Sabendo que essa modelo de gramática trabalhará com os significados, seja para quem quer escrever seja para quem quer falar. Era necessário criar-se um conjunto de normas, regras, para que os falantes pudessem seguir a risca a fim de manter o latim “intacto”. Tal como os médicos dizem aos seus pacientes que remédios tomarem para se curarem de suas enfermidades, os filósofos impuseram que “caminhos” as pessoas deveriam tomar caso quisessem se tornar verdadeiros cidadãos romanos através da língua. Podemos concluir, por fim, que a gramática tradicional também é prescritiva.
Quase como causa direta das duas características mencionadas acima, semântica e prescritivista, a gramática tradicional é, antes de tudo, universalista. Como já fora explicitado, a ânsia dos estudiosos gregos da linguagem humana era de preservar e de repassar a todos o latim usado pelos grandes escritores (aqui cito Homero, Virgílio, entre outros), portanto, todos que quisessem falar de maneira culta, deveriam se espelhar no latim, visto que era postulada como a língua perfeita dentre todas. Regras gerais foram criadas para que servissem para todas as outras línguas e eram pautadas no latim. Deste modo pode-se considerar que as outras propriedades tradicionais da gramática, exceto a filosófica, existiram em decorrência desse desejo de universalidade.
Com o advento da modernidade, em que o sentimento de nacionalidade aflorava em cada país, as línguas nacionais começaram a receber as atenções dos linguistas. O latim começou a perder seu caráter universal a partir do momento em que os estudos se voltavam para cada e toda manifestação da linguagem humana, independente da língua ou do país. O desejo já não procurar a língua perfeita ou mais completa, na verdade voltava-se para as descrições de cada particularidade das línguas. Por finalmente a Linguística ter se firmado como ciência específica, as bases teóricas das novas gramáticas eram baseadas na forma do enunciado, visto que Saussure, estudioso linguista, sugerira que o objeto da Linguística deveria ser a língua, ou seja, a forma da linguagem.


¹Texto feito pela aluna para a disciplina de Linguística III: Morfossintaxe, ministrada pelo Prof. Tiago Gil no dia 04 de abril de 2013 para o 3º semestre do curso de Letras, da URCA - Universidade Regional do Cariri.