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terça-feira, 4 de junho de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto IV

Era noite e não chovia, se quer havia nuvens no céu. Ainda sim não era uma noite comum. Imagina que eu estava dormindo, quieto e tranquilo, quando escuto uma risada baixa, sussurrante, risada de criança que brinca com alguma coisa. Como eu já tomara o costume, eu enfiava-me debaixo da cama e colocava as cobertas nos espaços entre a cama e o chão. Sei que tenho mais de 30 anos e que já estou velho para esse tipo de atitude, mas pense que durante mais de um mês uma criança de rosto retalhado, brincando com a própria vida, lhe assombrasse todas as noites e que a única maneira de se haver um pouco de paz é se enfiar embaixo da cama, você não se enfiaria?
Minha vida passou a girar em torno dessa criança que nunca vi, mas tenho certeza que seu rosto é sadicamente retalhado. Já encontrei restos de pele em alguns cantos da minha casa, e nesses restos havia linha de costura, além de brinquedos velhos e sujos de sangue. Sou refém na minha casa. Não posso sair e ninguém pode entrar.
Passo o dia em meu quarto, pois é o único lugar em que essa criança não entra e o motivo eu desconheço. Todas as noites eu pensava na mesma coisa: brevemente morrerei, ou de fome ou a criança me matará. A comida estava acabando e estragando. Não sei e nem lembro como tudo isso começou, mas só espero que acabe logo. Viver nessa angústia está me matando lentamente, como um veneno. Estou magro e fraco, mal tenho forças para sair da cama. Ultimamente tenho ficado muito debaixo da cama. O escuro e o frio daquele lugar acalentam a minha dor.
Meus olhos mal enxergam as cores e as luzes mundo, já se acostumaram com as sombras, com minha segurança. Minhas unhas cresceram e se cravaram na madeira das pernas da cama de tanta força que eu aplicava, achando que isso ajudaria a noite passar e dia chegar logo. Já não sei o que são minhas roupas ou meus cabelos. Aqui é o único lugar que fico seguro, que me sinto em paz, que aquela criança não me pegará. Meu corpo já se adaptou a nova posição e sinto dores se não estiver de bruços.
Hoje decidi morar debaixo da cama.
A partir desta noite ficarei lá e de lá jamais sairei, até a minha morte.

********

Uma casa velha fora comprada durante aquela semana. Um casal e uma menina morariam lá. Mas a pequena não conseguiu dormir naquela noite na casa nova.
-Pai – ela sussurrou no ouvido dele – Tem um monstro debaixo da minha cama – o pai a fitou com carinho e puxou-a para seu colo.
Não acreditava nessas histórias.
-Monstros debaixo de camas não existem – foi o que ele disse.
-Mas é um homem magro, feio e cabeludo...
-Durma, meu bem, durma.

por Ayanny P. Costa

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite


Conto II
Uma pessoa me procurou por longos três meses. Ela queria saber mais sobre o que aconteceu comigo e com a minha família. É curioso como pequenas coisas podem mudar o mundo, não acha? Eu decidi falar para essa pessoa, era uma escritora para um blog pouco conhecido, então concordei em contar a minha história. Já que era desconhecido, então minha história ficaria no anonimato.
Resolvi contar, então, o que se sucedera naquela noite. Eu estava voltando do trabalho, eram mais ou menos 10 horas da noite. Eu trabalhava, naquela época, como vendedora de uma loja no shopping da cidade. O céu estava vermelho. Iria chover em alguns minutos, então pensei que o ônibus, onde eu estava, poderia ir um pouco mais rápido para evitar a chuva. Quando faltava apenas um quarteirão para minha casa, eu desci do ônibus e corri para casa. Alguns repingos começavam a cair.
Na porta de casa, sentado e me fitando com penúria, um gato rajado de olhos de estranha cor. Eram negros por completo. Achei que o pobre gato fosse cego, e sempre gostei de gatos, então o deixei entrar em casa. A chuva engrossou. Os pingos d’água pareciam bolas de gude atingindo o teto. Os trovões e os relâmpagos pareciam despontar no terreno ao lado de casa. Eu tremia nas bases a cada barulho ensurdecedor que os fenômenos produziam. Aquela chuva não era comum.
Deixei o gato na sala e fui ver o resto da casa.
Tudo estava escuro e trancado. Meus pais dormiam. Olhei todas as portas. Tudo trancado. Respirei fundo. Eu achei que a casa estava segura. Fui tomar banho para dormir. Eu estava cansada naquele dia.
No meio da madrugada eu acordei assustada. Saí do quarto às pressas e fui até a sala. Eu tinha me lembrado do gato e da porta da frente. A chuva ainda estava forte e os relâmpagos iluminavam a casa de vez em quando.
Deparei-me com a porta escancarada e os ventos empurrando a chuva pelo vão. Fui até a porta e fechei-a. Assombrei-me com a visão que tive a seguir: a parte detrás da porta estava completamente marcada por rachaduras enormes. Parecia que uma coisa com garras enormes arranhara a porta. Nas bordas de algumas rachaduras vi marcas vermelhas que se estendiam até o chão. Segui com o olhar até ver que um caminho feito por um líquido vermelho próximo aos meus pés.
O cheiro forte inundou as minhas narinas. Era sangue. Segui o caminho até o quarto de meus pais. Eu estava apavorada. Minhas pernas tremiam e eu mal conseguia respirar. Empurrei a porta do quarto de meus pais. Dentro do quarto tudo estava destruído e havia sangue para todos os lados. Olhei para o chão. O felino me fitava intensamente, como se quisesse me dizer algo.
Comecei a caminhar para trás e ele me acompanhou. O gato sibilou para mim e tal me fez cair no chão. O gato saltou sobre mim e me abocanhou. Tentei gritar, mas o meu próprio sangue me sufocava. Meu corpo tremeu violentamente e eu desmaiei. Quando novamente abri os olhos eu estava numa cama de hospital. Meus pais conversavam com médicos sem nem notar que eu acordara. Olhei para o lado, para a janela, o gato estava lá e finalmente eu pude ver porque seus olhos eram negros: eram órbitas vazias. Quis gritar, mas minha boca estava enfaixada.
O gato atravessou a janela e veio até, silenciosamente, sem pressa, com certos ares irônicos. Ele escancarou a boca: também não possuía língua, além dos olhos. Chorei de terror. O animal se pôs sobre mim e fechou a boca, simultaneamente que fechava os olhos. Finalmente meus pais se voltaram para mim, mas eu vi que eles também não possuíam nem língua nem olhos. Na parede do quarto estava escrito em letras garrafais: “Que foi? O gato comeu a sua língua?”.
Meses depois eu fui internada num hospital psiquiátrico. Chamaram-me de esquizofrênica porque esse gato sempre me aparece nos dias de chuva.
Não sei quem me internou, não sei de meus pais, se estão vivos ou não, não sei o que acontece lá fora por estar presa aqui dentro. Tudo o que sei é um gato mudou a minha vida. Só isso.

por Ayanny P. Costa

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto I

        Que eu posso dizer...
      Desculpem-me pela modéstia, é a primeira vez que resolvo contar o que houve comigo. Não sou de falar muito, quero dizer, eu era de falar um bocado, mas agora não sou mais. Por onde começar. Talvez pelo dia. Era cedo quando acordei para sair, eu iria para a faculdade, já fazia algum tempo que eu cursava História, então eu não tinha lá grandes preocupações com horários. Eu trabalhava durante a tarde e comprara um carro, rápido eu chegava a onde eu queria se o trânsito tivesse bom. 

      O que acontece é que eu, naquele dia, acordei com vontade de ficar em casa. Eu me sentia meio angustiado, sabe? Como se alguma coisa fosse acontecer, mas eu tinha que sair. Por incrível que pareça era dia de prova e eu me sentia mais tranquilo sabendo disso. As vezes, para espantar os maus pensamentos é preciso achar algo que seja tão forte ao ponto de ocupar sua mente. Ao longo da prova eu me esqueci do sentimento, mas ele logo voltou, como se esperasse eu terminar. Fui almoçar depois que as aulas haviam encerrado.
     Notei que alguns pássaros ficavam me encarando para onde eu fosse. Me vigiavam, isso eu sabia. Aquela angústia apertava cada vez mais o meu peito e faltava-me o ar de vez em quando. Eu me questionava o que estava acontecendo. Por que eu me sentia daquela forma? Durante o almoço, uma moça jovem passou por mim. Ela me entregou um bilhete e saiu sorridente. Abri o papel com cuidado.

 "Falta pouco, muito pouco...  Tenha calma
Logo, logo em paz ficará tua alma
E estas pouca vida, tão fugaz
Perderá você, meu rapaz"
    Gelei completamente os ossos.
    Procurei a menina pelo restaurante, mas ela havia desaparecido. Meu coração quase saltava para fora de meu peito. Fui embora dali correndo para o meu carro. Eu tinha que ocupar a minha mente rapidamente. Aquilo era loucura. Alguém ameaçara a minha vida? Mas eu nunca fizera mal a ninguém e eu não conhecia quem me odiasse. Tão logo saí dos arredores da faculdade e já chegava ao meu trabalho. Eu lecionava numa escola tranquila, mas naquele dia eu não estava tranquilo.
    Entrei na sala com cautela. Como era de praxe, os alunos ainda não haviam chegado e eu tinha algum tempo para me acalmar. Foi quando eu percebi que a sala escurecera repentinamente. Olhei para as janelas escancaradas: as nuvens impediam a passagem do sol. Um vento soprou as nuvens para longe. A sala voltou a ser clara. Fui ao quadro para escrever os assuntos da aula, mas não pude fazer um único risco: minha mão paralisara quando meus olhos se depararam com a lousa. Inúmeras vezes, de inúmeras formas, estava escrito o poema que eu havia recebido no almoço.
      Corri para longe dali como um louco.
      Eu não podia ficar ali. Alguém me perseguia e queria me matar. Corri para o carro e acelerei para casa.
     Pouco me importavam os sinais vermelhos e as multas, eu dirigia sem ver o rumo. Minhas mãos tremiam e suavam frio. Os postes, as pessoas, as placas, tudo passava por mim como manchas. Dirigi por horas, até a gasolina quase acabar. Já passava das dez quando eu encontrei um posto de gasolina. Decidi voltar para casa. Quem quisesse me matar já teria desistido da ideia, já que não me encontrara na cidade, mas você sabe que as coisas são justamente o contrário daquilo que a gente pensa.
     O mundo me pareceu sufocante, então acelerei novamente cidade a dentro. Eu estaria seguro em casa. Se eu conseguisse chegar em casa ninguém me atacaria, eu ficaria bem, eu ficaria tranquilo. Desejei estar com meus pais, desejei estar em casa, mas ela não vinha por mais que o velocímetro marcasse 120km/h. Foi quando vi uma luz, uma luz forte que me cegou. Essa luz me fez ouvir um barulho agudo e ensurdecedor. O barulho fez meu carro tremer por horas. O tremor machucou-me severamente.
      Quando finalmente abri os olhos, eu estava em casa. Na cama, deitado e com a janela fechada, eu senti que era cedo demais, lembrei-me que tinha que ir para a faculdade. Tinha prova naquele dia. Mas ao me sentar na cama, uma onda de terror tomou o meu corpo e me fez tremer. Era angustiante, sufocante e eu não sabia de onde viera. Sabe aquela sensação ruim que te faz querer ficar em casa?

por Ayanny P. Costa
  

quarta-feira, 18 de abril de 2012

(O milagre das sombras) Prólogo - Gabriela



Era tarde, entre sete e oito horas da noite, ainda assim ela precisou sair urgentemente de casa. Era uma questão de saúde. Precisava levar seu filho ao médico, pois desconhecia o comportamento de sua criança: ele não ria, não chorava e dormia muito pouco, mesmo com os estímulos de sua mãe. Seu bebê possui quatro meses de vida e não age como tal, as dores de cabeça são causadas pela falta de tormento.             
Gabriela, a mãe de 16 anos solteira do bebê, tem pressa de chegar ao hospital Tasso Jereissati. Ela mora perto de lá, contudo, naquela noite, o hospital parecia longe.Apertou o passo.Teve um pressentimento ruim antes de sair de casa, mas seu bebê era sua prioridade agora. O vento soprou frio e cortante. Gabriela aperta a criança em seus braços para protegê-lo do frio repentino.Carregava-o em panos grossos para evitar o frio.
Ela passava do outro lado da rua na qual ficava localizada a praça da prefeitura de Juazeiro do Norte quando viu um casal empilhando corpos mutilados. Inconscientemente parou a marcha e sentiu-se obrigada a observar a curiosa cena, contudo, horrenda. Aquele fora o último momento em vida que a curiosidade de Gabriela a fez entrar em uma encrenca.Em segundos já havia retomado a marcha para o hospital.
A jovem mãe sabia quem eram aquelas pessoas empilhando corpos, outrora acharia esquisito, mas agora se tornou um fato corriqueiro e bizarro.
Quando Gabriela possuía 15 anos, há um ano antes de engravidar, recebera o sinistro convite de seu “namorado” para fazer parte de uma daquelas duas gangues que tinham cabalística mania de beber sangue de humanos. Seu namorado lhe falou em poderes sobrenaturais, em beleza eterna, em grandes riquezas e uma vida eterna, pomposas eram as vantagens de fazer parte de uma das gangues dos acordados, como eram chamados os membros por terem outra mania bizarra: andar somente à noite.
Gabriela também sabia que a rixa que as duas gangues possuíam sempre trazia a morte aos seus membros e que os combates eram tão violentos que apenas os líderes sobreviviam. Logo negara o convite. Seu “namorado”, possesso de fúria, violentou-a e, por conseguinte, Gabriela engravidou. Não denunciou as autoridades policiais quem a estuprara, e tampouco que fora estuprada, por causa do medo, mesmo com a existência vigente da Lei Maria da Penha no código penal brasileiro.
Ela é apenas mais um caso de tantas outras jovens que engravidaram precocemente. O que importava era que estava viva, por enquanto.
Continuou a passos firmes.
Até então ninguém ali lhe notara e desejava continuar assim.Repentinamente uma mão forte apertou-lhe o ombro.Gabriela temeu pela vida do seu filho. Apertou-o ainda mais em seus braços e não se moveu, apertou os olhos e esperou o segundo seguinte. Seu corpo foi virado bruscamente e no ato de girar sobre os calcanhares ela gritou, pois vira o rosto de seu agressor: um adolescente que possuía provavelmente a sua idade e sua altura, ele ofegava e expelia sangue pela boca. Estava sem um dos braços e exibia suas presas. Aquele rosto nunca lhe foi tão familiar como agora: seu ex-namorado. O acordado a toma pelo braço e a lança ao chão, fazendo o bebê cair inconscientemente ao seu lado.
O acordado salta em seu corpo e lhe morde o pescoço, sorvendo seu sangue veementemente. Gabriela grita como pode.
Com o resto de seus sentidos, a jovem mãe percebe uma figura se aproximar num leve flutuar. Uma figura fantasmagórica? Seria a morte? Não, Gabriela sabia que não. O rosto da figura, suave e angelical, encontrou o seu e o acordado foi retirado de cima de seu corpo à força. Gabriela sorriu. Um anjo viera lhe salvar.
-Um anjo... Anjo... – sua voz soa fraca e falha, quase inaudível – Salve... Meu... Salve... Salve meu... – ela tentou, ela quis gritar ao seu anjo salvador, com seu último suspiro, que salvasse seu bebê, mas tudo escureceu e sua vida esvaiu-se ao som copioso do choro de uma criança. 
João, seu filho, finalmente chorara.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ela virá, tenha certeza disso

E ela caminhava pelas ruas, sozinha, observando os pássaros que pousavam sobre os postes e os carros que passavam sem nenhuma tolerância à vida. Passos lentos e arrastados levavam-na Deus sabe para onde. Aqui acolá, ela batia em uma porta, mas era rejeitada.
Ninguém a quer, mas ela sempre bate a porta, apresentando-se educadamente e estendendo a mão. Mas a rejeitam mesmo assim. Ela não sabe quando começou a vagar, tampouco quando vai parar, mas sabe exatamente a onde ir. Sempre solidária ela estende a mão para os que estão em hora inoportuna, oferecendo-lhes uma oportunidade menos pesada a carregar.
Mas... Novamente ela é rejeitada pelo homem que dirigia um carro que capotou depois de acertar um posto, o homem estava bêbado e não reconheceu a chance de diminuir o fardo de paralisia corporal que passaria a carregar. Nem sempre ela foi negada pelas pessoas: há aquelas que a recebem até com cordialidade. Oferecem-lhe um pouco de café, suco, chá ou água, há aqueles que só lhe oferecem a gratidão pela ajuda, mas é mais que o suficiente para uma dama que trabalha sem remuneração.
E ela continuou caminhando pelas ruas sem saber se um dia receberia as férias ou demissão, mas sabe sempre aonde ir, mesmo que ninguém lhe diga. Nada tema, leitor, pois tal bondosa moça também chegará a sua porta, não há necessidade de procurá-la por aí. Aproveite o tempo antes da visita: curta seus parentes e amigos, faça coisas que gosta, descanse o corpo e a mente. Ela virá.
Sem pressa alguma.
Ela virá. Ela sempre veio. Ela sempre vem.
Batidas suaves na porta lhe avisarão que ela chegou. Uma ou duas batidas é o suficiente. Seja cortez, de-lhe um copo de água, pois a tempos que ela caminha sem descanso, ofereça uma cadeira confortável para que ela descanse seus pesados pés, converse um pouco com ela, pergunte sobre a ajuda e quem sabe ela volte depois. Mas ela virá. Relaxe, ela virá.
Ao abrir a porta, você verá uma dama de rosto distinto, com um suave sorriso e ela lhe dirá.
-Olá. É sua hora. Gostaria de me acompanhar, por favor?
E você dirá:
-Para onde iremos?
-Não é longe... Apenas me acompanhe e rápido chegaremos. É a glória que lhe espera.
-E quem é você?
-Ninguém muito importante... Apenas uma dama que quer lhe tirar um pesado fardo.
-Diga-me seu nome!
Ela ficará tímida, mas dirá em bom tom:
-Sou Morte, e sua hora chegou. Vamos?
Ela lhe dará o braço e para algum lugar ela irá lhe levar...