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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dos contribuidores: Eveline Ferreira


PROJETO SANTIDADE
Santidade não é difícil de ser alcançada por um jovem nos dias de hoje, se você deseja, você pode conquistar  basta querer e ter força de vontade. Para te ajudar veja alguns tópicos para alcançar a verdadeira santidade:
Ø  Ser uma pessoa absolutamente normal.
Ø  Fazer obras maravilhosas
Ø  Fazer um movimento de felicidade
Ø  Aceitar os defeitos do outro, como algo que possa se transformas em virtudes aos olhos de Deus.
Ø  Querer que o outro também fosse santo.
Ø  Se separe um instante de si mesmo, e dedicar um tempo para Deus.
Ø  Dedicar – se ao outro, amando, acolhendo, servindo.
Deixe que Deus seja o motivo de sua felicidade, sem depender de pessoas ou até mesmo de coisas desse mundo para ser feliz, pois são coisas passageiras que passam e no voltam mais. Claro que você deva também aproveitar o que o mundo oferece de melhor, no entanto, você deve levar Deus para onde quer que você vá:
Ø  Sair com os amigos
Ø  Ir ao grupo de oração
Ø  Rezar
Ø  Servir o outro
Ø  Escrever ou estudar

VIVER! VIVA A VIDA! DESEJE O CÉU!

Siga sua vida como lema essa frase a cima, assim você pode verdadeiramente viver uma santidade plena no seu dia - a – dia. Ser santo e ser protagonista da própria vida, só de Deus provem a verdadeira mudança interior, a verdadeira revolução Jesus, viver para Deus, com Deus e por Deus.






Autoria: Eveline Ferreira lima
Inspiração: Deus foi o verdadeiro autor desse texto, pois e Ele que me inspira e me dar forças para viver.
Bibliografia: Livro Santos de calça jeans de Adriano Gonçalves

segunda-feira, 20 de maio de 2013

(5) M&L - O livro das conquistas


05
No salão do imperioso castelo dos Typhoon, envolvido por pedras pontiagudas e árvores frondosas, uma mulher caminha de um lado ao outro, impaciente, angustiada. Nas paredes frias do lugar, pinturas de seus antepassados vigiavam a mulher de longos fios presos numa trança impecável. O farfalhar de suas saias atraía a atenção de quem passasse por ali. No trono, silencioso e paciente, um homem mirava sua mulher que estava à beira do desespero. O homem, de queixo firme e aparência agradável, acariciava a cabeça de sua águia de estimação.
-Onde ela está?! Onde ela está Grys?! – bradava a mulher.
-Calma, Klea, ela logo estará aqui. Já mandei todos os meus soldados irem a sua busca. É uma questão de tempo para encontrarem ela! Paciência...
-Como pode me dizer para ter paciência e calma se sua filha está perdida na floresta, sozinha e indefesa!!! – Klea aproximou-se do trono – Minha luz! Minha linda luz! Ela nunca saiu de casa sem nós! E ainda me manda ter calma?!
O homem se levantou brutamente.
-E o que quer que eu faça?! – sua voz mansa agora estava alterada.
-Eu quero que monte em Aliestor, voe até aquela maldita floresta e traga Lillie de volta!!! – ela falou rispidamente.
-Eu ensinei Lillie a caçar e a se defender se fosse o caso – ele rebateu.
-Mas ela nunca caçou de verdade, tampouco foi atacada de verdade antes! – o rosto da mulher desfez-se em lágrimas – Eu só quero minha filha de volta!
-Não se preocupe... Metade das minhas tropas está há procura dela.
Um velho aproximou-se do casal.
O baque de sua bengala fez este o mirar. A aparência decrépita e assustadora causou repugnância tanto em Klea como em Grys. Vestido num sujo hábito marrom, o velho parou diante dos dois e exibiu um sorriso ainda mais assustador quanto a sua aparência. Na ponta de sua bengala, um cristal verde reluzia.
-Meus senhores – o velho, com dificuldade, fez a reverência – Eu tenho a informação necessária para encontrar sua jovem filha.
-Ora essa – adiantou-se Klea – Pois fale!
-Temo, minha senhora, que não poderei dar-lhe visto que não só a Cidadela de Alatu tem conhecimento do sumiço da pequena luz – o velho tossiu – E me pagariam caro para obter tão valiosa direção – um olhar perspicaz surgiu na face dele.
-O que quer em troca? – Grys se pronunciou.
-Case-me com a menina e eu lhe direi onde ela está, do contrário, outras cidadelas descobrirão a localização de Lillie...
-O quê?! Seu maldito... – Grys fora interrompido pelo soar das trombetas.
Repentinamente o salão foi invadido por inúmeros soldados envolvidos em rede púrpura e carregando suas espadas. O mais adiantado, sendo o líder do batalhão, fez reverência perante o Duxcis da Cidadela. Grys fez sinal para o líder se levantar. O homem, que possuía não mais que quarenta anos, mirou Grys.
-Senhor! Encontramos Lillie nos arredores da cidadela! – o homem pronunciou com segurança – Um jovem Viajante estava ao lado dela!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

(4) M&L - O livro das conquistas


04

Uma sensação quente subiu por seu corpo e quando deu por si, estava com os lábios presos aos de Mandraeke num forte beijo de carinho. Já se sentira apaixonada por homens, mas nunca ao ponto de beijá-los repentinamente. Os dois jovens abraçaram-se com força e compartilharam as emoções na flor da pele naquele beijo sob a luz do luar. Novos beijos brotaram do coração de Lillie e Mandraeke recebera cada qual como se fosse único. Por fim se encararam.
As respirações descompassadas, mas juntas. Os rostos suados e unidos pelas testas. Os lábios distantes, mas próximos o suficiente para se ligarem novamente. Os braços e as mãos mantinham o calor daquela paixão viva. Os olhos mirando-se sem pressa, com carinho e contemplação. Mais um beijo.
Era primeira vez na vida de Mandraeke que ele se sentira tão atraído por alguém e ainda mais sendo desconhecido. No fundo de sua alma queria ficar para sempre ao lado daquela garota de cabelos acobreados. Sentia o desejo de viver uma vida inteira com Lillie e para sempre amá-la e protegê-la. Mas não podia. Seus caminhos não poderiam se entrelaçar daquela maneira. Ela era uma Typhoon e se soubesse quem ele realmente era, o abandonaria sem pestanejar. Outro beijo com mais carinho.
-Não podemos – ele indagou.
-Tudo bem... Em minha terra garotas como eu já tem filhos – Lillie sorriu e o abraçou com força, fazendo-o retribuir o abraço com um beijo – Meu pai ficará feliz se souber que já sei com quem irei me casar no próximo verão.
-O quê? – Mandraeke afastou-se bruscamente de Lillie – Não pode... Quero dizer, não posso casar-me com você!
-Por quê? – Lillie sentiu uma intensa vontade de chorar – Você queria só se aproveitar de mim, é isso? – Mandraeke negou imediatamente. Era preciso contar a verdade. O rapaz correu até ela e a abraçou – Por que você não quer ficar comigo?
-Eu quero. Pelos céus, como eu quero ficar com você! – ele sussurrou – É primeira vez que me sinto assim, com vontade de ficar para sempre ao lado de alguém, lhe juro! Mas não posso – Lillie, angustiada, o encarou – Somos de mundos diferentes destinados a viver separados – ela se desvencilhou dele – Nascemos para sermos inimigos, não amantes! – eles se encararam.
-Do que está falando?
-Meu nome – o garoto se engasgou com as próprias lágrimas que ele insistia em prender – Meu nome é Mandraeke Aequoreas, o Amaldiçoado, filho de Dokar, líder dos Viajantes – Lillie assombrou-se. Os Viajantes era uma frota de lutadores poderosos que aportavam de ilha em ilha matando e saqueando toda cidade que viam. Eram inimigos declarados de seu povo desde muito antes do tempo.
-Então o que faz aqui? Veio me sequestrar?!
-Não! Nunca! Jamais! – Mandraeke não pode segurar mais as lágrimas – Eu fui amaldiçoado no meu nascimento e quando completei onze anos fui expulso de meu próprio lar, pela minha própria mãe! Roubei a espada que forjaram para mim, pois meu pai negou-me o direito de usá-la! – o corpo do rapaz caiu de joelhos – Estou vagando sozinho por essa terra há tantos anos com fome e cansaço, escapando de todos os perigos que o destino colocou em meu caminho... Tudo o que me restou foi minha missão de passagem... E ainda sim é morte na certa...
Lillie também chorava.
Apaixonara-se por aquele garoto magricela que há tanto tempo sofria e agora descobria que o destino arquitetara contra os dois para que nunca ficassem juntos. Mandraeke enxugou suas lágrimas e se levantou alegando estar acostumado com o sofrimento e que ela não deveria se preocupar. Sussurrava que ficaria tudo bem no fim das contas. Lillie sabia que não e também sentia que aquele era o seu escolhido. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mudando de ares: Filologia


Resenha sobre a Reportagem da revista Superinteressante¹ de 1990

É complicado se trabalhar com certas áreas históricas em vista da pouca quantidade de dados que tais garantem aos seus pesquisadores. A Filologia, ainda que seja uma ciência inteiramente voltada para a linguagem, se envolve com a História tal como se envolve com outras ciências, como a Psicologia e a Antropologia. Para tanto, sabe-se que documentos oficiais, principal objeto de estudos, perderam-se com o tempo de acordo com as situações em que se envolviam. Pensando desta forma, consegue-se entender o quanto complicada é a busca pela árvore genealógica que muitas vezes a Filologia se presta com o apoio da Linguística Histórica.
Um dos trabalhos da Linguística do século passado, o mais importante de todos eles, era encontrar a mãe das línguas, ou pelo menos algum parentesco, através da comparação entre línguas semelhantes. Desta forma descobriram-se as línguas românicas, isto é, línguas que possuem uma mesma raiz comum: o latim. Bem como outras famílias linguísticas surgiram na medida em que as comparações ganhavam concretude. As “proto-famílias” (por que não dizer “as superfamílias”) também se tornaram alvos para os linguistas a partir do momento que eles perceberam que as famílias linguísticas possuíam certo grau de semelhança, ao se observarem certos grupos de vocábulos e seus significados. Talvez umas das ânsias dos linguistas fosse comprovar o mito da Torre de Babel, em que todos os homens falavam a mesma língua e, para demonstrar a superioridade humana, criaram uma torre que pudesse alcançar o céu. Deus, para “castigar” a pretensão do homem, destruiu a torre e com ela a língua original, fazendo com todos os homens passassem a falar línguas diferentes. Mas surge o questionamento: qual o interesse da Filologia nessa investigação histórica?
Realmente é uma pergunta pertinente e a resposta é ainda mais pertinente. Para uma ciência que estuda a cultura e o comportamento dos povos através dos escritos deixados por eles, seria bastante conveniente conhecer a origem de todas as línguas, por mais utópico que possa parecer. O ato de conhecer a gênesis linguística ajuda o filólogo a entender os processos culturais que modificaram e distanciaram, ou não, a língua-mãe de suas “filhas e netas”. No entanto, há um porém, talvez o mais sutil e definidor de todos: muitas vezes as evidências genealógicas entre línguas remotamente aparentadas são escassas, ou seja, os linguísticas históricos se valem de algumas poucas palavras na busca do sang’real, isto é, o sangue real. Sabe-se que do contato de uma língua com outra, pode ocorrer da primeira tomar para si expressões da segunda e vice-versa. Qual seria a prova, então, de que ambas são parentes? Nem sempre a semelhança de alguns vocábulos indicará um verdadeiro grau de parentesco.
A reportagem publicada na revista Superinteressante, intitulada “Antes da Torre de Babel” vem relatar tais constatações já abordadas ao longo do texto. No terceiro parágrafo, na seção Português é aparentado até com o sânscrito, é relatado: [...] “3 mil línguas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Essas, mais outras milhares já esquecidas que deixaram algum tipo de registro escrito, foram agrupadas em doze² famílias linguísticas importantes e cinquenta menos importantes.” Nesse pequeno trecho, mas bastante esclarecedor, nota-se o nível de dificuldade que linguistas históricos de todo o mundo enfrentam ao longo de seus estudos. Se supusermos que cada língua possui em torno de 5.000 verbetes, cada qual com seus significados e etimologias próprias, teremos 15.000.000 milhões de palavras oficialmente catalogadas para serem comparadas, sem estar levando em conta os dialetos e as línguas ditas mortas³ (a exemplo o latim).
Tamanho trabalho árduo gera frutos mínimos observando tais números, mesmo que supostos. Comparar línguas, encontrar nelas reminiscências de outra, e nesta se deparar com resquícios, e para fim encontrar nestes sopros ou ecos de um passado de difícil acesso de uma língua. É de semelhante dificuldade que os paleontólogos partilham ao encontrarem o osso da ponta da cauda de um gigantesco brontossauro (um dos dinossauros de maior comprimento de que se tem notícia).
Na reportagem mencionada, logo de cara nos deparamos com um fato comprovado: essa investigação não é algo oriundo dos tempos modernos. Bem antes do nascimento de Cristo, um faraó já refletia sobre a língua dos homens. As mais bizarras experiências foram feitas para tentar descobrir qual era a língua dos primórdios. Bebês eram criados sem nenhum contato social e verbal, se preciso fosse o suprimento alimentício seria cortado para que eles fossem instigados a usar a língua original. No entanto, ao que consta, foi um fiasco. Mas o desejo de descobrir a “avó” de todas as mães de todas as línguas resistiu ao tempo e as experiências com crianças. Chegou aos tempos modernos e com eles encontrou novos meios de estudar as similaridades que as línguas tinham entre si, assim dando início a Linguística Histórica e realçando os interesses da Filologia.
Um dos pontos que ponho em cheque nesse momento final do texto, talvez culminante para toda a minha argumentação, são os justos exemplos dados ao fim da reportagem. Aqui cito o parágrafo:

Uma delas é a incrível semelhança de palavras entre as línguas indígenas da América pré-colombiana e idiomas falados pelos povos do Mediterrâneo e Oriente Médio. Por exemplo, os índios araucanos do Chile usam a mesma palavra que os antigos egípcios, anta, para designar o Sol e a mesma palavra que os antigos sumérios, bal, para machado. A palavra araucana para cidade é kar, semelhante a cidade em fenício, que é kart. (SUPERINTERESSANTE, pg.??, 1990)

Os linguistas, bem como os filólogos, trabalham com muito pouco para dizer tanto. Não afirmo que seja um trabalho em vão, que tais estudos não levarão a lugar algum, no entanto já se percebeu que as famílias e as proto-famílias não são realmente línguas concretas: na verdade são suposições das originais, posto que não haja documentos escritos em tais línguas. É preciso tomar cuidado, pois uma língua possuir palavras semelhantes, ou de mesmos significados, ou mesmo idênticas a outras não significará propriamente que sejam irmãs, primas, netas, filhas ou mães.






¹  Número da revista não identificado, bem como o mês de publicação
²No texto original se encontra “dose”, mas para ajudar na compreensão a correção foi feita.
³Uma língua morta não significa que não é mais usada. Na verdade é uma língua que não é mais falada pelo povo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Mudando de ares: mais um pouco de Linguística...


TROCANDO EM MIÚDOS COM O FORMALISMO

Francisca Ayanny Pereira Costa¹

Ferdinand de Saussure
Antes de se saltar diretamente para a Linguística Científica, vale ressaltar que essa só veio a ser uma ciência propriamente dita depois dos esforços, sendo que nenhum fora em vão, de Ferdinand de Saussure. Este estudioso voltou seu olhar para uma única, por assim colocar, missão: tornar a Linguística uma área das ciências modernas. Para tanto buscou definir os dois principais pré-requisitos para uma disciplina tornar-se científica: o objeto e o método.
O primeiro dos dois requisitos, nós podemos entregar os créditos da delimitação para Saussure, visto que, apesar de não ter sido o pioneiro, foi o que iluminou o caminho para muitos que viriam a seguir. Sabendo que a linguagem compõe-se do discurso, seja este falado seja escrito, Saussure teve que tomar a difícil decisão de objetivar a linha de estudos da Linguística. Pelo o que se constava, na linguagem havia duas vertentes, surgindo assim uma de suas famosas dicotomias, ou se trabalharia com a fala, ou se trabalharia com a língua.
Saussure optou pela segunda por razões, por assim colocar, convenientemente seguras e lógicas. Em oposição à fala, a língua possuía quatro características que a tornavam perfeita para ser o objeto da Linguística científica, citando-as: abstrata, social, homogênea e é um sistema. Observemos por parte então. A primeira delas é que a língua não se constitui de um conjunto de processos fisiológicos como a fala (o ato de emitir sons, de recebê-los, transformá-los em impulsos elétricos e enviá-los ao cérebro), trata-se de uma atividade cognitiva, isto é, da consciência construída por todo homem com interações sociais. Analisando desta forma, independente do idioma aprendido, todo ser humano acaba por adquirir a língua, ou uma língua.
Visto que a consciência pode ser considerada fruto de uma interação social, e que linguagem é, talvez, uma consequência dessa interação, a língua torna-se social. Para melhor explicar, tomemos um exemplo: todos, por mais extrema que seja a região, que moram no Brasil falam o português brasileiro. Um falante que mora em Chorozinho, Ceará, é compreendido por um falante que mora em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, ou no Arquipélago de Fernando de Noronha, e isso se dá porque para ambos os moradores a língua é mesma, ainda que regionalismos existam. Há algo de comum para todos os habitantes de uma nação e isso torna o estudo da língua mais viável para Saussure, ao invés de estudar cada forma individual de falar. Pensando dessa forma entende-se a homogeneidade da língua, isto é, uma língua única para todos.
No entanto, para podermos mergulhar realmente no formalismo, o que nos interessa é a última particularidade da língua observada por Saussure: o fato de a língua constituir-se de um sistema. Se para todos os praticantes do português brasileiro há uma unanimidade, garantindo a compreensão e sociabilidade entre os mesmos, significa que existe um conjunto de aspectos abstratos, e então adquirido por eles, que sustenta essa unanimidade. Há esse ponto em comum que Saussure chama de “sistema”. Falo de um conjunto de regras que regem o uso da língua, isto é, a fala. Poderíamos denominar de duas maneiras esse conjunto: o nosso dicionário e a nossa gramática mental. O dicionário para o uso das palavras de acordo com seus significados, ou seja, o conteúdo. A gramática, principalmente, para a construção dos enunciados, ou seja, a forma.
É nesse ponto que entra o já citado Formalismo, como já está no próprio nome, se volta justamente para a “forma do sistema”. Talvez por ter Saussure como seu precursor, as dualidades também se apresentaram nesse nível dos estudos linguísticos. Como antes, vamos por parte. O primeiro modelo formalista de estudos da linguagem enformado foi Estruturalismo. Igualmente ao Formalismo, o que este modelo trata está no próprio nome: a estrutura da língua, que não deixa de ser sinônimo, neste caso, de forma. Teve suas importâncias para a Linguística Científica e aqui cito duas julgadas por muitos como decisivas.
Leonard Bloomfield
Primeiramente, o caráter epistemológico foi levado em conta. Analisar o objeto a partir de sua raiz, nesse caso, seria a construção das sentenças, relevando as relações que os termos usados criam entre si (determinante e determinado). Mas vale lembrar que, como postulava Bloomfield, não se considerava a linguagem uma capacidade inerente ao homem, isto é, o ser humano aprendia ao longo de sua convivência com o meio (pessoas e ambientes) e com as respostas que recebia de seus estímulos. Bloomfield apoiava-se na teoria behaviorista para explicar o processo de aquisição da linguagem. Em suma, o homem constrói a partir do que recebeu.
Por conseguinte, observa-se o caráter metodológico. Sabendo que é importante observar as relações que os termos sustentam entre si, é preciso conhecer como elas se dão, estruturalmente pensando. Nos é apresentado o princípio da comutação. Os constituintes são analisados a partir de sua localização na estrutura e de seu comportamento para com ela, deixando de lado o conceito tradicional, criando-se a Gramática de Constituintes. Tomemos um exemplo para tanto: o adjetivo deixar de ser a palavra que caracteriza o ser, e se torna, pela posição, a palavra que acompanha o substantivo, e pela função, o agente determinante do sujeito ou do próprio substantivo. Se assim não for, a palavra perde sua caracterização como “adjetivo” e passa a ser outra coisa. Desta forma pode-se observar cada estrutura e dividi-la em seus dois constituintes, repetindo o processo nos termos que surgirem, por conseguinte.
Pode parecer conveniente, mas para um estudioso chamado Noam Chomsky problemas se evidenciaram ao se trabalhar com uma gramática de constituintes. Chomsky percebeu que se analisando, pelo princípio da comutação, cada sentença era uma sentença específica e que não se repetia em outros casos. Então como explicar orações escritas de maneiras diferentes, mas que expressavam a mesma coisa? (Comi o bolo/O bolo foi comido por mim) Não deveria haver semelhante estrutura, posto que as sentenças expressem o mesmo significado? E quanto às sentenças que expressem mais de um significado, ou seja, as ambiguidades? (A cachorra da vizinha espiou-me pelas brechas) Terei uma estrutura ou duas? Chomsky percebeu que a Gramática de Constituintes precisava ser aperfeiçoada a fim de responder estas perguntas.
Noam Chomsky
O outro lado da moeda formalista passa a ser conhecida: o gerativismo de Noam Chomsky. O sistema e o seu uso recebem novas denominação, com algumas alterações quanto ao conceito: "língua" passa a ser competência, visto que a língua, para Saussure, era algo social e para Chomsky, e é aqui em que os conceitos se diferem, a competência (o sistema) é algo interno ao homem, portanto, inerente, e compartilhado por ele com os indivíduos. O uso passa a ser  o desempenho, ou performance, talvez por não ser foco de estudo de ambos os autores, ainda mantém o mesmo conceito para Saussure e para Chomsky. Basta lembrar-se do Enem: competência se refere àquilo que se deseja que o aluno tenha ao fazer sua redação e o desempenho poderia ser o ato de escrever em si. Tal como todos os seus precursores, Chomsky prefere a competência ao desempenho. Os motivos já foram mais do que abordados: trata-se do sistema e este é social, homogêneo e abstrato. Mas não é apenas nessa sutil troca que o gerativismo se difere do estruturalismo.
Sabe-se que Bloomfield acreditava que o homem era, tal como afirmava John Locke, uma tábua rasa, nascia sem absolutamente nada, mas Chomsky já pensava o contrário. Se uma criança consegue criar incontáveis frases a partir de poucos vocábulos oferecidos aleatoriamente, por exemplo, casa/bonita/amarela/papai/a/o/de/morar/ser, muitas destas frases nunca pronunciadas por aqueles que compõem o meio da criança, pode-se dizer que esta mesma criança possui alguma “coisa” que a permite receber sentenças, quebrá-las e reconstruí-las de acordo com a sua vontade.  Chomsky supunha que este mesmo meio em que essa suposta criança está inserida não possui “informações” suficientes para que ela forme estruturas complexas, como “A casa amarela de papai é bonita” na qual a coesão de gênero e de número é mantida. A esta insuficiência de informações, Chomsky chamou de “O argumento da pobreza de estímulos”, bem direto por sinal.
Para justificar casos como estes, o linguista afirmou existir um dispositivo inato ao homem responsável por esse “cardápio vasto” de estruturas que uma criança poderia ter. Chomsky refere-se justamente a capacidade humana de se adquiri uma linguagem, independente da língua, o “patenteado” Dispositivo de Aquisição da Linguagem, ou Language Acquisition Device (LAD), que se assemelha a uma linha de montagem: o indivíduo recebe as peças e vai recombinando-as de acordo com sua necessidade expressiva. Quem assim conhece, afirmar que o papel do meio para a aprendizagem fora descartado, no entanto nãoé bem assim que Chomsky propõe. Se não há o meio para oferecer “as peças” para indivíduo, não há como ele adquirir quaisquer línguas, ou seja, o meio tem a sua importância, mas não é o centro. Isto é, uma criança não nasceria sabendo que língua ela vai falar quando puder, na verdade é preciso que os pais a ensine e que um professor específico a ajude a desenvolver suas capacidades linguísticas. Assim propunha Chomsky em sua Teoria Gerativista.


POR NONA AY


¹Texto feito pela aluna para a disciplina de Linguística III: Morfossintaxe, ministrada pelo Prof. Tiago Gil no dia 04 de abril de 2013 para o 3º semestre do curso de Letras, da URCA - Universidade Regional do Cariri.

Mudando de ares: um pouco de Linguística


SOBRE A GRAMÁTICA TRADICIONALISTA, OU TRADICIONAL, AINDA MAIS, CLÁSSICA.

Francisca Ayanny Pereira Costa¹

No início, muito antes desta disciplina se chamar “Linguística”, os estudos voltados para a linguagem não eram propriamente gramaticais. Vale lembrar que tais estudos têm suas origens na Grécia Antiga, com os filósofos clássicos. Pode-se considerar que o primeiro passo dado rumo aos debates propriamente linguísticos foi dado por Platão, quando escreveu “Crátilo”, obra na qual ele começa a questionar a gêneses da linguagem humana. A pergunta que permeia tal trabalho é se trataria de um acontecimento natural ou seria convenção do homem. No trabalho, Platão se convence de que originalmente a linguagem era natural, e com o passar do tempo, em vista das influências dos meios e da reflexão sobre todas as coisas, convencionou-se.
Outro filósofo que voltou alguns de seus estudos para âmbito da linguagem foi Aristóteles. Diferentemente de Platão, que mantinha as discussões no domínio ideológico, Aristóteles trouxe-as para o campo do discurso. Este último estudou a construção do pensamento. Para ele, os conceitos, referente à nossa percepção do mundo, são palavras com significados próprios, os juízos são julgamentos formados a partir dos conceitos e por fim o raciocínio, mantendo a mesma linha de pensamento, é a união dos juízos.
Por estar trabalhando com a classificação das palavras no latim, Aristóteles observava cada termo de acordo com o seu significado, que posteriormente foram criadas dois tipos gramáticas baseadas nesse modelo de trabalho. Como havia o desejo mútuo de preservar a língua dos grandes escritores, isto é, o latim, as primeiras gramáticas propriamente ditas foram baseadas no significado e na pronúncia das palavras. Respectivamente, a primeira era para os falantes aprenderem a norma culta da escrita latina, enquanto a segunda servia para aqueles que queriam aprender a falar latim, mas não eram gregos. Mesmo com finalidades diferentes, ambas as gramáticas eram tradicionais, pois visavam manter o latim como língua primordial.
Dionísio da Trassa, outro filósofo de trabalhos provavelmente posteriores aos de Aristóteles, deu seguimento aos estudos do último, dando melhor forma. Percebeu-se, então, que essa gramática iniciada por Aristóteles e continuada por Dionísio possuía quatro importantes atributos. O primeiro refere-se a sua origem. Como já fora mencionada, as primeiras discussões a respeito da linguagem partiram dos filósofos, tal como a atitude de “montar” a primeira gramática. Assim posto, consideramos que a gramática tradicional é filosófica.
Por Aristóteles ainda ter mantido a associação da palavra com aquilo que ela representa no mundo real, já pregado por Platão, dizemos que a gramática tradicional é semântica. Isto é, ela primordialmente trabalha com os significados dos termos usados. Para efeito de exemplo tem-se a definição de substantivo ensinada nas escolas nas séries iniciais: a palavra que nomeia o ser. A criança deve conhecer primeiramente o que são os seres para só então poder aplicar a ação de nomeá-los, ou seja, ela deve ir ao mundo real para entender algo da linguagem.
Sabendo que essa modelo de gramática trabalhará com os significados, seja para quem quer escrever seja para quem quer falar. Era necessário criar-se um conjunto de normas, regras, para que os falantes pudessem seguir a risca a fim de manter o latim “intacto”. Tal como os médicos dizem aos seus pacientes que remédios tomarem para se curarem de suas enfermidades, os filósofos impuseram que “caminhos” as pessoas deveriam tomar caso quisessem se tornar verdadeiros cidadãos romanos através da língua. Podemos concluir, por fim, que a gramática tradicional também é prescritiva.
Quase como causa direta das duas características mencionadas acima, semântica e prescritivista, a gramática tradicional é, antes de tudo, universalista. Como já fora explicitado, a ânsia dos estudiosos gregos da linguagem humana era de preservar e de repassar a todos o latim usado pelos grandes escritores (aqui cito Homero, Virgílio, entre outros), portanto, todos que quisessem falar de maneira culta, deveriam se espelhar no latim, visto que era postulada como a língua perfeita dentre todas. Regras gerais foram criadas para que servissem para todas as outras línguas e eram pautadas no latim. Deste modo pode-se considerar que as outras propriedades tradicionais da gramática, exceto a filosófica, existiram em decorrência desse desejo de universalidade.
Com o advento da modernidade, em que o sentimento de nacionalidade aflorava em cada país, as línguas nacionais começaram a receber as atenções dos linguistas. O latim começou a perder seu caráter universal a partir do momento em que os estudos se voltavam para cada e toda manifestação da linguagem humana, independente da língua ou do país. O desejo já não procurar a língua perfeita ou mais completa, na verdade voltava-se para as descrições de cada particularidade das línguas. Por finalmente a Linguística ter se firmado como ciência específica, as bases teóricas das novas gramáticas eram baseadas na forma do enunciado, visto que Saussure, estudioso linguista, sugerira que o objeto da Linguística deveria ser a língua, ou seja, a forma da linguagem.


¹Texto feito pela aluna para a disciplina de Linguística III: Morfossintaxe, ministrada pelo Prof. Tiago Gil no dia 04 de abril de 2013 para o 3º semestre do curso de Letras, da URCA - Universidade Regional do Cariri.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Branca de fome - Parte 3


Branca não via nada além de muita poeira e o sol forte em seu rosto. Lampião arrastava o homem pela calça através do chão quente, ele gritava e se mexia de agonia. O homem desvencilha-se de Lampião e levanta-se rapidamente, corre até seu jumento e retira uma espingarda. Aponta a arma para a cabeça de Lampião e espera o cachorro aquietar-se.
-Se ocê matar meu cachorro, eu afogo ocê na própria goela! – grita Branca, colocando-se entre o cachorro e o homem.
O homem, que na verdade era um rapaz, abaixa a arma e fita Branca. Fica pasmo com o semblante decidido da moça. Branca não era tão bela como antes. A seca, o calor e os trabalhos pesados deixaram-na feia e maltrapilha. Ao contrário do rapaz: bem vestido, com botinas engraxadas e o cabelo marrom quase penteado.
O rapaz vai até o jumento e guarda a arma.
-Como é seu nome, sinhorita? – o rapaz aproxima-se de Branca, mas fica um pouco afastado porque Lampião lhe mostrava os dentes.
-Nome eu num sei não, seu dotô... Só me chamam de Branca... – a garota manteve-se fria e direta.
-Eu num sô dotô mocinha! – brinca o rapaz.
-E eu num sô mocinha! Sô muié! E ocê? Quem é?
-Eu me chamo Miguel Lourival Sousa Rodrigues de Matos Alencar! – o rapaz falou, categoricamente, cada palavra de seu nome.
Branca deu de ombros e virou as costas para o rapaz. Voltou a encher um grande tonel de barro que logo carregaria na cabeça. Termina de encher e coloca o barril na cabeça. Lampião põe-se na frente e vai escoltando o caminho de Branca até a fazenda.
-Ei! Por que me virou as costas?! – gritou o rapaz, montado em seu jumento, tentando acompanhar os passos ligeiros de Branca, a galope.
-Ora essa! – Branca riu consigo mesma – Prum cabra que tem um nome que é quase um livro, ocê num é lá essas coisa toda não!
-Menina atrivida! Mulambenta! Num sabe com quem tá falando não?! Sô filho do coronel...
Branca interrompe parando no meio do caminho.
Ela põe uma mão na cintura.
Lampião prepara-se para um ataque.
-Num sei quem, num sei quem, num sei quem Rodrigo do Mato!!! – Branca volta a caminhar, veloz, o caminho para a fazenda. Deixando Miguel sem palavras e se roendo de raiva da ousadia de Branca.
Após algumas semanas, Branca não viu mais Miguel todas as vezes que ia buscar água no poço. Porém andava preocupada com outra coisa: Rainha andava agindo estranha desde o aniversário de Branca de 16 anos, conversando com um homem estranho que olhava imoralmente para Branca. Rainha parecia planejar algo e Branca tinha medo de tal plano.
Certa noite, Branca sem dormir, foi até a fazenda pegar alguns restos do jantar para comer e dividir com Lampião. O cachorro vigiava a choupana silenciosamente, apenas iluminada pela luz da lua, quando Branca saíra. Lampião seguiu a amiga até a casa, sorrateiro como um rato, mas atento como um calango.
Branca vê Rainha conversando com o estranho homem barbudo. Agora ele estava provisoriamente hospedado na fazenda. Os dois conversavam sobre trocas. Branca coloca-se atrás de uma mesa rústica e observa a conversa dos dois. Lampião deita-se ao seu lado.
-Pois está feito seu Sivirino! Branca, amanhã bem cedo, vai simbora com o senhor! Em troca o senhor me dá três cabeças de gado, certo?!
-Sim sinhora! Branca é minha e meus três boi branco é da sinhora! – os dois apertam as mãos selando o contrato.
Branca assombra-se com a resolução, mas se mantém em silêncio e sai devagar da sala. Logo estava na cozinha, pegando tudo o que podia de comida, colocando em uma bolsa de couro bovino que possuía e estava atrás da porta, além de água e algumas roupas que ela guardava no armário onde ficavam os cereais. Branca tinha pressa.
Lampião esperava Branca na porta, espreitando o movimento de toda a casa. Logo Rainha surge através da porta, empurrando-a com força, Lampião esconde-se embaixo da mesa.
-Onde pensa que vai com essas coisa?! –Rainha percebe o que Branca fazia. Branca vira-se para a Rainha e coloca a bolsa nas costas.
-Vô me bora!
-Oxe! E por quê?!
-Ocê vai me vender por três cabeça de boi!!! Isso num se faz cum a pessoa que passô a vida intera trabaiando e cuidando da sinhora sem recramá nenhuma veiz! Ocê é ruim feito uma cobra criada!!! Eu vô me bora e num tem um mundo que me impate!
Rainha mexe-se para agarrar Branca pelo braço.
-De jeito manera!!! Venha cá sua cabrita!!!  – Rainha grita.
Mas Lampião mordeu-lhe a perna, fazendo Rainha cair no chão como uma árvore despencando. Lampião passou por cima de Rainha e correu para o lado de fora da casa. Branca e Lampião já iam longe, cobertos pela escuridão da noite, correndo pelo sertão do Ceará, sem rumo ou direção. Sem ter noção do que poderia acontecer com os dois pelo caminho.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Branca de Fome - Parte 2



Logo chegava a conclusão que nunca mudaria.
Para não se entristecer cantava para espantar os maus pensamentos.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só!

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”
E repetia as duas estrofes inúmeras vezes, pois não sabia o resto da música. Cantava com o coração, com alegria, sentindo que apesar de sofrer tanto era uma garota de coração de carne e sentia amor. Um amor sem dono e sem motivo, apenas amor. Logo, alguns animais curiosos apareciam para ouvir sua cantoria, apesar de sua voz não ser das mais doces ou suaves.
Mas era sincera e natural.
A voz de um coração de menina.
Dois calangos, lagartos de pele escura, fitaram Branca puxar água do poço artesiano, estavam no alto de uma pedra e ouviam atentamente a menina. Atrás dela, seu fiel escudeiro, corria levantando poeira atrás de dois gordos preás, espécimes semelhantes a ratos encontrados na caatinga. Um cachorro magro, sem raça, de pelos amarelados como o solo e dentes alvos de tanto roer ossos que encontrava pelo caminho que Branca seguia. Esse é seu escudeiro e fiel confidente.
Tinha a altura da cintura da menina.
Apesar de ossudo, o cachorro era valente e protegia Branca sempre que achava que sua amiga estava em apuros. Foi à maneira que encontrou de retribuir o bem que a menina fez a ele, depois de muito suplicar a Rainha para não matá-lo. Branca o batizou de Lampião.
O cachorro fazia jus ao nome.
Além de valente, era feroz e bom caçador. Raramente faltava carne de algum animal quando Lampião ia caçar.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só! – e puxava com as forças que lhe eram cabíveis um balde cheio de água.

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”- ela cantava sem se importar.
Uma gigante nuvem de poeira se formava atrás de Branca. Os calangos fugiram ao perceber o perigo, mas Branca não percebeu. Estava tranquila e concentrada em puxar os baldes de água, cantarolando uma das poucas músicas que aprendera no velho rádio. Lampião notou a poeira chegando cada vez mais perto de sua amiga, deixou a caçada para um momento mais oportuno e saiu em disparada.
Seu corpo magro e esguio lhe era útil quando precisava correr rápido e sem perder tempo. Logo estava entre Branca e a nuvem de poeira. Começou a latir como manda o figurino, avisando a amiga do perigo. Branca vira-se e vê um corpo de aproximando dela. Seu movimento foi tão rápido quando a carreira que Lampião tomara.
Segurou o balde com firmeza e atingiu na cabeça do que parecia ser um homem sobre um animal. O homem caiu no solo e o animal, que é um jumento, relinchou de susto. Lampião continuou a latir.
A confusão estava armada.

Continua na próxima parte.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Branca de fome -Parte 1


Morava numa casa distante, rústica e modesta. Mal tinha um local certo para dormir ou comer, os cômodos da casa se fundiam num único só. A casa era um cômodo. Além de um incômodo. Ficava nos fundos de uma fazenda. Morava de favor, servia de empregada doméstica para a dona da fazenda.
Uma viúva rica e muito egoísta. O calor intenso, a pouca chuva e a escassez de alimento deixava qualquer um duro como pedra e mais seco que um toco no meio da terra vazia. Todas as chamavam de Branca porque, mesmo andando léguas no sol, ela ainda ficava branca. Realmente Branca ficava vermelha ao chegar do poço que fica a um sexto de légua.
Era como os moradores indicavam a distância a ela.
Não sabia ler, escrever ou contar. Só sabia o suficiente para não desapontar sua patroa, que gostava de ser chamada de Rainha, por ter a maior fazenda da região. Branca tinha 15 anos de idade, agora estava aprendendo a ler com a cozinheira da casa grande. A cozinheira, chamada Tonha, tivera pena e ensinava as primeiras letras.
Branca se esforçava em tudo. Leitura, escrever e trabalhar. Possuía uma extrema dificuldade para escrever e ler, não conseguia juntar as ditas letras e formar palavras. Tampouco conseguia escrever. Era uma tarefa complexa comparada aos seus outros trabalhos: cozer, cozinhar, lavar, passar, consertar coisas e outros trabalhos.
-Oxe, Branca! Se esforce! Bora! B com A, dá?! – indagava Tonha, mostrando-lhe as letras em um papel surrado.
-B com A... B com A... – Branca levanta-se indignada consigo mesma – Eu num sei!!! Num adianta, Tonha!!! Num sei!!! Num consigo, nem que a vaca vire do avesso e cante ingual a sabiá!!!
- Dexe de bestera!!! Tu num me disse que queria lê pra virá dotora! Pois bora! Vamo! Leia ligero! Responda logo o que dá B com A!!!
- Mas eu num sei ,Tonha!!! Dessas coisa eu num entendo nem um caroço de piqui! Eu quero ser dotora, mas pra curar gente duente, não pra lê ou escrevê! – Branca batia o pé no chão de raiva que sentia.
- Mas minha fia... Se tu num lê, cuma é que tu vai saber o que tá iscrito nos papel que os duente traz quando tão duente?!
- Num sei! Eu pergunto e eles me diz o que tão sintindo! Pronto, aí eu passo o remédio e pronto!
-Oxe! E se o duente num se lembrar do nome do remédio? Cuma é que vãodiscobrir o diacho do remédio pra se curar?!
Branca começa a chorar. Sabe que o que Tonha diz é verdade. Sabe que vai precisar saber ler e escrever para receitar os remédios, e, principalmente, para estudar em uma Universidade de Medicina. Branca senta-se e começa a pensar, mexe no papel, olha para o alto. A jovem sempre olha para o alto quando busca uma resposta.
Uma mania, desde pequena.
- Bá! – Branca grita toda sorridente!
- Pois é isso mermo minha fia! Bá! – Tonha abraça Branca com carinho. As duas voltam a observar o papel, Branca continua treinando para memorizar bem cada nova sílaba.
- B com A, bá, B com E, bé, B com I, bi, B com O, bó, B com U, buuuu!!!!- brinca Branca fazendo careta para Tonha. A preta ria com a brincadeira, gargalhava junto com a menina.
- Branca!!! - grita a Rainha, interrompendo as risadas.
- Já vô!!! – Branca responde – Mais tarde nois treina né?
- É, minha fia! Agora vá antes que a patroa fique infezada!
Branca guarda o papel no bolso e corre em direção à sala onde a Rainha esperava impacientemente. Era o mês de setembro e estava muito quente na região, no estado do Ceará. O calor lembrava-lhe o próprio inferno na terra, Rainha abanava-se velozmente com um leque europeu que havia comprado em uma de suas viagens.
Rainha abanava-se como podia.
- Diga, Rainha! – Branca entra ofegante na sala.
-Ora sua menina atrivida!!! Esqueceu de se curvá de novo! – grita a Rainha, fechando o leque com força.
-Desculpe... – Branca curva-se e espera o desejo de sua senhora.
-Traga um copo de aluá bem gelado! E ligeiro! – disse a Rainha em tom imponente. Branca curva-se de novo e sai rapidamente.
Em instantes ela estava de volta com uma bandeja reluzente, onde no centro brilhava um copo de cristal cheio do aluá. Uma bebida feita a partir da casca de uma fruta cítrica, podendo essa ser uma laranja, um abacaxi ou tangerina, também conhecida como mexerica.
A Rainha saboreia a bebida com gosto, bebendo todo o líquido em poucos goles. Suspira de alívio e sorri ligeiramente para Branca, a garota percebe e sorri em agradecimento. A Rainha abre seu leque e começa a se abanar novamente, virando o rosto.
-Traga mais um copo! – ela coloca o copo sobre a bandeja, quase derrubando-o – Mais cuidado, sua lagartixa amarela! Se quebrar um copo meu, arranco sua língua com uma peixeira cega!!!
-Desculpe... – Branca volta rápido, mas com cuidado, para a cozinha e começa a preparar mais aluá. Sabia que Rainha era louca por aluá, talvez fosse à bebida que mais apreciasse, até mais que água. Por várias vezes, Branca ia e vinha, levando e trazendo copos e mais copos cheios de aluá para sua senhora. Até que ela ficara satisfeita.
Todos os dias de Branca eram assim. Trabalhando como escrava, mas sem reclamar, pois acreditava que a Rainha era boa de certo modo por lhe dá comida, água e lugar para dormir. Era o que lhe consolava quando pensava em sua situação medíocre. Suspirava enquanto caminhava pelo chão árido e seco, caminho que tomava para buscar água várias vezes ao dia. Imaginava o que poderia mudar sua vida.


TO BE CONTINUED...

quinta-feira, 7 de março de 2013

Aí vem nova história!

Eu sei que você conhece aquela garota de cabelos negros como carvão, lábios como a rosa e pele branca como a neve (Espelho Mágico)... O quê? Não lembra dela? Claro que lembra dessa garota aí...

Pois é. Existem inúmeras versões para a Branca de Neve. A que se revoltou e resolveu pegar na lâmina e dá um jeito ela própria na Rainha Má...



 Essa versão mais Kamai (Momento Ounti Que lindo!)


Pode até que você tenha conhecido essa versão...


Mas aposto que nunca conheceu a versão nordestina da história, na qual Branca é vermelha de tanto sol e ela não é "de neve", é "de fome". Os anões crescerão e aprenderam a atirar.  O príncipe é atrapalhado. A Rainha é a Rainha de uma fazendo e Branca tem mãe. 


Acompanhe a história de "BRANCA DE FOME" em suaves prestações de 5,99. Brincadeira! Em cinco capítulos que postarei ao longo do mês.

Branca de Fome - o conto nunca mais será o mesmo.