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terça-feira, 4 de junho de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto IV

Era noite e não chovia, se quer havia nuvens no céu. Ainda sim não era uma noite comum. Imagina que eu estava dormindo, quieto e tranquilo, quando escuto uma risada baixa, sussurrante, risada de criança que brinca com alguma coisa. Como eu já tomara o costume, eu enfiava-me debaixo da cama e colocava as cobertas nos espaços entre a cama e o chão. Sei que tenho mais de 30 anos e que já estou velho para esse tipo de atitude, mas pense que durante mais de um mês uma criança de rosto retalhado, brincando com a própria vida, lhe assombrasse todas as noites e que a única maneira de se haver um pouco de paz é se enfiar embaixo da cama, você não se enfiaria?
Minha vida passou a girar em torno dessa criança que nunca vi, mas tenho certeza que seu rosto é sadicamente retalhado. Já encontrei restos de pele em alguns cantos da minha casa, e nesses restos havia linha de costura, além de brinquedos velhos e sujos de sangue. Sou refém na minha casa. Não posso sair e ninguém pode entrar.
Passo o dia em meu quarto, pois é o único lugar em que essa criança não entra e o motivo eu desconheço. Todas as noites eu pensava na mesma coisa: brevemente morrerei, ou de fome ou a criança me matará. A comida estava acabando e estragando. Não sei e nem lembro como tudo isso começou, mas só espero que acabe logo. Viver nessa angústia está me matando lentamente, como um veneno. Estou magro e fraco, mal tenho forças para sair da cama. Ultimamente tenho ficado muito debaixo da cama. O escuro e o frio daquele lugar acalentam a minha dor.
Meus olhos mal enxergam as cores e as luzes mundo, já se acostumaram com as sombras, com minha segurança. Minhas unhas cresceram e se cravaram na madeira das pernas da cama de tanta força que eu aplicava, achando que isso ajudaria a noite passar e dia chegar logo. Já não sei o que são minhas roupas ou meus cabelos. Aqui é o único lugar que fico seguro, que me sinto em paz, que aquela criança não me pegará. Meu corpo já se adaptou a nova posição e sinto dores se não estiver de bruços.
Hoje decidi morar debaixo da cama.
A partir desta noite ficarei lá e de lá jamais sairei, até a minha morte.

********

Uma casa velha fora comprada durante aquela semana. Um casal e uma menina morariam lá. Mas a pequena não conseguiu dormir naquela noite na casa nova.
-Pai – ela sussurrou no ouvido dele – Tem um monstro debaixo da minha cama – o pai a fitou com carinho e puxou-a para seu colo.
Não acreditava nessas histórias.
-Monstros debaixo de camas não existem – foi o que ele disse.
-Mas é um homem magro, feio e cabeludo...
-Durma, meu bem, durma.

por Ayanny P. Costa

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto III


         Dezoito. Essa era a quantidade horas que meu namorado estava a encarar dois psiquiatras, que se revesavam de vez em quando, e cinco policiais. Tudo o que ele expressava era um efêmero sorriso quando os psiquiatras trocavam de lugar, que sumia tão logo quando os policiais lhe apontavam as armas. Sua respiração compassada por baixo da camisa branca marcava sua tranquilidade. Ele estava amarrado a uma cadeira de ferro soldada no chão. Eu tinha a sensação que ele sabia que eu estava observando-o o tempo todo, do outro lado de um espelho-vidro. 
          Jeremias, esse é o seu nome. Nunca um nome foi tão temido desde Hannibal Lecter. Um nome bobo, eu sei. Era o que ele sempre me dizia quando dormíamos juntos. "Jeremias... Que nome bobo minha mãe escolheu para mim, não? Poderia ter sido outro..". Quem diria? Lá estava eu fitando, com os olhos vermelhos e molhados de tanto chorar por horas, o homem que sempre amei. Apenas durante uma hora me deixavam entrar no local. Diziam que era um forma de Jeremias contar tudo, mas sua boca estava selada num sorriso macabro. Nem mesmo meus pedidos e clamores o faziam falar.
          Fecharam-se as vinte e quatro horas. Nenhuma palavra, nenhum momento de sono, ninguém retrucou nada, seu comportamento estava intacto. Libertaram-no. Não tinham provas de que Jeremias era o culpado por todos os alunos de nossa turma que ficaram psicologicamente transtornados depois de ouvirem sua apresentação de um trabalho de filosofia. Quando voltamos para casa fizemos amor. Jeremias me disse que a única forma de ter se mantido tranquilo fora pensar em mim o tempo inteiro.
           -Eu te amo Ana- ele sussurrou, abraçando-me carinhosamente - Eu realmente te amo.
           -Eu também - beijamo-nos - Mas por que eles acusaram você?
           Novamente aquele sorriso.
         Jeremias levantou-se da cama e foi até o guarda-roupa. No caminho, ele terminava de se vestir sem pressa e com certa elegância. Tirou de lá uma mochila grande. Ele a abriu e conferiu todos os objetos que haviam ali: variavam desde roupas até documentos. Em seguida colocou a mochila no canto da porta. Jeremias vestiu apenas uma calça jeans surrada e uma blusa branca, mas retirou do guarda-roupa seu casaco preferido, longo e preto, e vestiu-o. Fiquei observando-o organizar-se como num ritual.
         Retirou dois últimos objetos de lá. Eles cintilavam e pareciam serem feitos de ferro. Jeremias notou minha curiosidade e me mostrou os objetos. Duas armas iguais. Ele as colocou na parte de trás de sua calça e foi até a porta. Rapidamente me levantei da cama, pouco me importando com a falta de roupa em meu corpo. Eu o abracei com força, quase querendo tomar as armas dele.
           -Até que se prove o contrário, não existe homens inocentes, certo? - ele proferiu - Eu te amo demais para permitir que sofra... - ele me beijou - Não há como provar, mas realmente eu fiz o que eles disseram - Jeremias foi até a cama e pegou um lençol, envolvendo-me com ele - Eu queria provar ao meu professor que a sanidade não existia, independente do que se faça e consegui. Transformei uma turma de alunos em loucos completos, porque essa é verdadeira essência humana...
            -Mas o que fará se descobrirem a verdade?
         -Eles nunca descobriram, porque a verdade é escura demais para que os olhos deles possam enxergar e nenhuma luz sobre ela poderá dissipar a escuridão, apenas a luz tênue de uma vela.
            -Mas do que você está falando?
            Ele me beijou.
          -Não se preocupe. Algum dia virei libertá-la, tal como eu libertei - ele sorriu - A verdade vem para todos, meu amor, mais cedo ou mais tarde.
         Um novo beijo e o vi sair pela porta. Sua sombra foi desaparecendo na medida em que ele ia cerrando a porta atrás de si. Desejei falar-lhe algo, mas minha boca não se movia mais.


*****
Recorte de um jornal local:
Tiragem de 15/05/2012
Subiu para 67 o número de pessoas encontradas em estado catatônico. Todos os pacientes possuem as mesmas características: posicionadas de maneira vertical, com a face voltada para o alto, nenhum impulso motor evidente, nenhuma resposta a estímulos das mais diversas naturezas, baixos sinais vitais e pouca atividade cerebral. A causa ainda é desconhecida. Médicos afirmam que a causa, apesar de desconhecida, não pode advir de doenças, tampouco de venenos, posto que grupos inteiros foram encontrados na mencionada situação e nenhum indício para tais foram encontrados pela polícia local. O Instituto Médico Legal admitiu, em nota para a imprensa, que apenas uma das 67 vítimas, uma jovem de apenas 17 anos, conseguiu sair do estado vegetativo sem o auxílio de medicamentos, isto é, por conta própria, mas esta foi dada por desaparecida no dia 01/05/2012, depois de receber a visita de seu suposto marido. Nenhum vestígio de fuga fora encontrado no quarto da paciente por nome de Ana. A polícia acredita que ela tenha escapado pela porta da frente juntamente com seu parceiro, no entanto as câmeras de seguranças filmaram o homem sendo revistado por policiais que vigiam o local, e saindo sozinho pela citada porta. Nenhum paciente recuperou-se depois do desaparecimento da jovem.


por Ayanny P. Costa

terça-feira, 7 de maio de 2013

Branca de Fome - Parte Final


Branca pega rapidamente Lampião no colo e corre para fora da fazenda, descalça, pisando na jurema e ferindo seus pés cheios de calos. Ela corria sem importar com a dor, queria fugir com o seu cachorro, que tanto amava. Ao olhar para trás viu que estava sendo seguida pelos mesmos homens que machucaram Toinha e Lampião.
A moça apertou o passo e não cessou a corrida.
Os homens vinham a galope e aceleravam.
Enquanto isso as balas eram trocadas na frente da fazenda. Jango chegara com os reforços para Venâncio. Trazia consigo mais dez homens, sem contar com o Coronel e seu filho, Miguel Lourival.
Mal desceram dos cavalos começaram a disparar contra a fazenda.
-ATIREM!!! – gritou o Coronel – Eu num quero um cabra desse vivo antes do almoço!!! Matem tudim!!!
Nesse instante Rainha surgiu na sacada, ela carregava outra espingarda e atirava contra o Coronel.
-Ocê tá pensando que é quem pra chegar na minha propriedade e atirá a torto e a direito!!! – gritou Rainha.
-Cale a boca sua jararaca!!! Ocê tá cum a muié que meu fí quer pra casar!!! Liberte ela ligero!!!
E as balas não paravam. Dois homens de Rainha já estavam mortos, enquanto Ariovaldo estava com a perna baleada. Miguel aproximou-se do pai com um revolver empunhado e atirando.
-Pai! Cadê Branca?!
-Parece que tá lá dentro!
-Pois eu vô buscar ela é agora!!! – gritou o rapaz.
-Nem pensá!!! – gritou Vieira.
-Oxe e por quê? É a muié que eu amo!!!
-Ela tá é ali! – Vieira aponta para um corpo magrinho correndo carregando um pequeno corpo nos braços e com três homens a cavalo em seu encalço. Miguel correu para seu cavalo e montou, Vieira e Venâncio fizeram o mesmo para ajudar o rapaz em seu intento.
Ao olhar novamente para trás Branca caíra, pois tropeçara numa pedra e machucara o seu dedão. Lampião fora lançado um pouco mais frente, rolando na terra seca, fazendo poeira subir. Ela chora e se arrasta até o amigo com as poucas forças que lhe restava. Branca abraça o amigo, que acordara milagrosamente e logo se pusera na defesa de sua amiga. O cão latia contra os cavalos, assustando-os e afastando-os o quanto podia de Branca. Um dos jagunços ergueu uma pistola e mirou no cachorro.
Branca vira e se colocara no caminho.
-Não!!! – ela gritara com os olhos fechados, abraçando Lampião e dando as costas ao jagunço.
Ela ouviu um tiro.
Pensou que era para si, mas na verdade foi para o jagunço que levantara a pistola e mirara em seu cachorro. Com olhos marejados e vermelhos, Branca viu o corpo despencar do cavalo enquanto o animal corria as pressas para longe do atirador, assustado com o barulho da bala. A moça vê uma batalha travar-se diante de si.
Miguel ao ver um homem apontar uma pistola contra o cachorro de Branca apertou ainda mais o passo, fazendo o cavalo quase voar sobre a terra rachada. Então sua visão foi assombrada por uma cena: Branca coloca-se no caminho da bala abraçando Lampião no desejo de salvá-lo da morte. Miguel se desespera e atira inconscientemente no jagunço, amedrontando o cavalo e matando o homem.
Venâncio e Vieira começam a atacar os outros dois jagunços para que Miguel pudesse chegar até Branca e salvá-la.
-Venha Branca! Vamo simbora daqui! – Miguel desce do cavalo e pega a moça nos braços, colocando-a em seguida sobre o eqüino.
-Lampião! Num se esqueça de Lampião!!!
Miguel pega o cão com cuidado e coloca-o sobre o colo de Branca. O canino é recebido aos mimos e são todos retribuídos a menina através de calorosas lambidas. O rapaz volta aos galopes à fazenda Raio de Sol, pois Venâncio e Vieira conseguiram eliminar os outros dois jagunços. Todos se reuniram, no fim do tiroteio, na varanda quase destruída de Rainha.
João e Jango foram buscar Toinha depois de muita insistência de Branca. Rainha e seus jagunços foram todos mortos na contenda. Branca estava salva e estava sendo cuidada por sua mãe de criação.
Lampião foi considerado o grande herói de toda a história.
-Eu num tô lhe dizendo, homem, que o cachorro foi atrás de nois pra dizer que Branca tinha sido levada!!! – repetia Ariovaldo, com a perna enfaixada, sentado na varanda – Num foi não Nhô Venâncio?
-Ora se num foi?! O sinhô Coronel ainda duvida?
-Pois eu tô precisando dum cachorro desse! – brincou o Coronel.
Todos riram da brincadeira.
Lampião fora agraciado com todos os mimos que sua dona e amiga poderia lhe dar. Variando entre afagos e beijos. Toinha agradecia a todos os anjos e santos do céu por ver sua filha do coração sã e viva.
O Coronel aproximou-se devagar de Branca, ajeitando seu chapéu branco sobre a cabeça e exibindo seu melhor sorriso. Perto de si trazia Miguel, que vinha com os braços atrás do corpo e pouco de timidez. Branca viu o rapaz e o puxou pela mão para mais perto de si, ao ponto de que conseguira dar um leve beijo nos lábios trêmulos do rapaz. Toinha se levantou devagar, com as mãos na cintura, colocando-se entre Branca e Miguel, se mostrava desconfiada, olhando pelo canto do olho para o rapaz. Acanhado Miguel voltou para perto do pai.
-Quais é suas intenções? – resmungou Toinha.
O Coronel respondeu pelo filho.
-Meu filho casar cum sua fia! Desde o dia que levou uma baldada dela na cabeça que ele não esquece essa menina!
-Hum...! Num sei não!
-Minhas intenções são boas! – prontificou-se Miguel – Eu só quero dá a vida que Branca nunca teve na vida! Dá de comer, de beber, o que vestir, um lugá bom pra morar e proteção!
-Se Branca quisé... – disse Toinha voltando aos curativos dos pés da menina – Ocê casa! Mas tem que levá eu junto!
-Eu levo! Eu levo! Se Branca quisé eu como seu esposo...
-Eu quero! – disse Branca colocando-se de pé.
Miguel abraçou a moça e outro beijo, dessa vez mais demorado, foi trocado pelo casal. Os cangaceiros urraram de alegria juntamente com os jagunços do Coronel. Branca impôs ainda mais duas condições para se casar com Miguel: primeiro, Lampião iria com ela e seria seu cão de guarda, segundo, os cangaceiros seriam seus guarda-costas pessoais.
O Coronel aceitou ambas as condições.
Todos foram a galope para a fazenda do Coronel organizar o casamento de Branca com Miguel. Alguns tiveram que dividir os cavalos entre duas pessoas, pois Toinha foi também.
-Mas me diga meu filho – o Coronel chegou perto, com seu cavalo, do cavalo cuja Branca, Miguel e Lampião iam montados – Cuma é o nome dessa moça? Por que ocê sabe que ela tem que assinar um documento.
Miguel nem precisou responder. Sua noiva se ocupou com isso.
-Ora seu Coronel! Nome eu num sabia não, mas agora eu sei!
-E qual é?
-Branca!!!

Branca de Fome - parte 5



Branca mostrou a língua a Rainha quando a mesma virou o rosto para frente. A menina temia que Venâncio não soubesse o que Lampião estava querendo demonstrar no momento em que o cão o encontrasse. Temia que não fosse salva e temia, ainda mais, ser vendida a um homem que desconhecia as mania e que se mostrava vulgar.
Rápido como um pé de vento Lampião encontrou o bando de Venâncio. Seu faro aguçado jamais lhe abandonara, principalmente nos momentos mais precisos como aquele. Ao ver o ancião de chapéu de couro escorado a um juazeiro e Venâncio sentado a sombra do mesmo partiu em disparada até ele.
Cada segundo era importante.
Lampião tinha que ser preciso e direto, se não sua amiga iria para longe e ele nunca mais a veria.
O resto dos homens conversava folgadamente sobre banalidades que viram e ouviram na cidade. Venâncio, graças aos seus instintos já treinados, sentiu que alguma coisa se aproximava dali. Levantou-se e segurou com firmeza sua espingarda. Vieira seguiu o olhar de Venâncio e procurou o que poderia estar alarmando o líder do grupo.
Viu uma nuvem de poeira aproximar-se com rapidez.
Ajeitou os óculos redondos diante do nariz e se concentrou no intuito de entender o que estava acontecendo. Venâncio relaxou ao ver que era Lampião que se aproximava as pressas, ao contrário de Vieira.
O cachorro chegou e começou a latir com ferocidade.
O cangaceiro não entendeu a atitude do canino.
-Oxe Lampião! O que é que tu quer?
E cachorro latia, dando saltos e rodopios, sempre direcionando seu focinho para a direção de onde viera. Vieira, sagaz como era, entendeu o que o animal estava tentando repassar.
Segurou no ombro de Venâncio com preocupação.
-Venâncio, homem, vamo simbora!
-Que foi cabra?
-Oxe que Lampião tá aqui, mas Branca num tá! Homem! Esse cachorro só larga a menina quando ela tá tomando banho e mal! Fica vigiando a porta como quem diz que ninguém vai chegá perto! Venâncio vamo simbora! Vai que o cachorro tá dizendo que Branca foi levada!
-E num é que é mermo! Chico das Pedas! – o robusto homem queimado pelo sol com um chapéu de couro semelhante ao de Vieira se aproximou – Vá ligero até a casa de seu Coronel Rodrigues dos Matos Alencar e diga que a menina que tinha prometido pra casar com o sinhorzinho Miguel foi levada por Rainha!
-Sim sinhô!
-E ande cabra! Vá mais rápido que chuva em seca!!! Cuide!!!
Chico das Pedas subiu em seu cavalo e foi rápido cidade a dentro, levantando uma densa nuvem de poeira.
-Vamo os homem! Vamo atrás daquela cobra criada e tirá Branca daquele buraco do demônio!
Os homens gritaram ao comando do líder e subiram em seus cavalos. A carreira foi uma só. Lampião ia à frente, guiando fielmente os cangaceiros até a sua antiga morada. O canino estava disposto a dar a vida por sua salvadora e amiga. Mesmo sem palavras, Lampião dizia “Eu te amo” todas as vezes que deitava no colo de Branca, à noite, quando a menina ia dormir. Amava-a mais que o próprio Miguel, quase igual a Deus.
Em duas horas já estavam diante das porteiras da fazenda Raio do Sol. As portas da casa estavam bem guardadas por alguns jagunços de Rainha, todos empunhavam espingardas e todos eles exibiam caras maldosas. Mas isso não intimidou Venâncio.
Ele levantou sua arma para o alto e deu um tiro de aviso.
-Se num deixá Branca ir simbora cum nois, tu vai levar sal grosso nos couro Rainha!!! – gritou Venâncio – Ocê num vai saí viva nem que num queira se num deixá Branca saí!!!
Os jagunços de Rainha começaram a atirar nos cangaceiros, contudo esses já estavam acostumados com os tiroteios e não arredaram o pé dali, em respostas atiravam nos jagunços. Lampião aproveitou essa distração e se embrenhou pela jurema que contornava a fazenda, para chegar sem ser percebido a porta dos fundos como sua dona lhe ensinara.
O som das balas atingindo as paredes da casa, de homens sendo atingidos e xingando a própria sorte acordou Rainha de seu sono de beleza. Branca, que estava na cozinha amarrada dentro de um armário, começou a gritar desesperadamente por ajuda.
Toinha, sentindo um forte aperto no peito, libertou a menina. Branca abraçou sua mãe de criação e decidiu ali mesmo que a levaria consigo para cozinhar para o bando de Venâncio, Toinha aceitou sem pensar duas vezes. Nesse momento Lampião chegou aos pulos, latindo forte para assustar que estivesse na cozinha.
Branca apertou o amigo em seus braços, banhando o canino com suas lágrimas de alegria e estima. O cachorro lambia o rosto da menina mostrando em seu linguajar o quanto estava feliz em vê-la viva e bem.
Os três decidem sair por trás da fazenda, mas era tarde.
Rainha chegou repentinamente com mais três jagunços e prendeu Branca depois de muitas tapas que Toinha deu em dois dos três jagunços. A negra caiu desmaiada no chão da cozinha no momento em que um terceiro jagunço atingiu-a com o cabo da espingarda na cabeça.
Branca chorou em desespero.
-Mamãe!!! – gritou a menina – Minha mamãe!!!
O mesmo aconteceu ao Lampião.
-Lampião!!! – a menina segura com firmeza uma panela e atinge a cabeça do jagunço que a segurava.

CONTINUA...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite


Conto II
Uma pessoa me procurou por longos três meses. Ela queria saber mais sobre o que aconteceu comigo e com a minha família. É curioso como pequenas coisas podem mudar o mundo, não acha? Eu decidi falar para essa pessoa, era uma escritora para um blog pouco conhecido, então concordei em contar a minha história. Já que era desconhecido, então minha história ficaria no anonimato.
Resolvi contar, então, o que se sucedera naquela noite. Eu estava voltando do trabalho, eram mais ou menos 10 horas da noite. Eu trabalhava, naquela época, como vendedora de uma loja no shopping da cidade. O céu estava vermelho. Iria chover em alguns minutos, então pensei que o ônibus, onde eu estava, poderia ir um pouco mais rápido para evitar a chuva. Quando faltava apenas um quarteirão para minha casa, eu desci do ônibus e corri para casa. Alguns repingos começavam a cair.
Na porta de casa, sentado e me fitando com penúria, um gato rajado de olhos de estranha cor. Eram negros por completo. Achei que o pobre gato fosse cego, e sempre gostei de gatos, então o deixei entrar em casa. A chuva engrossou. Os pingos d’água pareciam bolas de gude atingindo o teto. Os trovões e os relâmpagos pareciam despontar no terreno ao lado de casa. Eu tremia nas bases a cada barulho ensurdecedor que os fenômenos produziam. Aquela chuva não era comum.
Deixei o gato na sala e fui ver o resto da casa.
Tudo estava escuro e trancado. Meus pais dormiam. Olhei todas as portas. Tudo trancado. Respirei fundo. Eu achei que a casa estava segura. Fui tomar banho para dormir. Eu estava cansada naquele dia.
No meio da madrugada eu acordei assustada. Saí do quarto às pressas e fui até a sala. Eu tinha me lembrado do gato e da porta da frente. A chuva ainda estava forte e os relâmpagos iluminavam a casa de vez em quando.
Deparei-me com a porta escancarada e os ventos empurrando a chuva pelo vão. Fui até a porta e fechei-a. Assombrei-me com a visão que tive a seguir: a parte detrás da porta estava completamente marcada por rachaduras enormes. Parecia que uma coisa com garras enormes arranhara a porta. Nas bordas de algumas rachaduras vi marcas vermelhas que se estendiam até o chão. Segui com o olhar até ver que um caminho feito por um líquido vermelho próximo aos meus pés.
O cheiro forte inundou as minhas narinas. Era sangue. Segui o caminho até o quarto de meus pais. Eu estava apavorada. Minhas pernas tremiam e eu mal conseguia respirar. Empurrei a porta do quarto de meus pais. Dentro do quarto tudo estava destruído e havia sangue para todos os lados. Olhei para o chão. O felino me fitava intensamente, como se quisesse me dizer algo.
Comecei a caminhar para trás e ele me acompanhou. O gato sibilou para mim e tal me fez cair no chão. O gato saltou sobre mim e me abocanhou. Tentei gritar, mas o meu próprio sangue me sufocava. Meu corpo tremeu violentamente e eu desmaiei. Quando novamente abri os olhos eu estava numa cama de hospital. Meus pais conversavam com médicos sem nem notar que eu acordara. Olhei para o lado, para a janela, o gato estava lá e finalmente eu pude ver porque seus olhos eram negros: eram órbitas vazias. Quis gritar, mas minha boca estava enfaixada.
O gato atravessou a janela e veio até, silenciosamente, sem pressa, com certos ares irônicos. Ele escancarou a boca: também não possuía língua, além dos olhos. Chorei de terror. O animal se pôs sobre mim e fechou a boca, simultaneamente que fechava os olhos. Finalmente meus pais se voltaram para mim, mas eu vi que eles também não possuíam nem língua nem olhos. Na parede do quarto estava escrito em letras garrafais: “Que foi? O gato comeu a sua língua?”.
Meses depois eu fui internada num hospital psiquiátrico. Chamaram-me de esquizofrênica porque esse gato sempre me aparece nos dias de chuva.
Não sei quem me internou, não sei de meus pais, se estão vivos ou não, não sei o que acontece lá fora por estar presa aqui dentro. Tudo o que sei é um gato mudou a minha vida. Só isso.

por Ayanny P. Costa

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Branca de Fome - Parte 4



Longas as noites de medo e escuridão que Branca passou abraçada a Lampião, com medo não de monstros fantasiados que toda criança tem medo, mas dos animais que por aí vagavam, além dos cangaceiros. Homens que não seguiam a lei, que matavam as pessoas que cruzavam o seu caminho e não obedeciam a suas ordens. Os dias quentes e secos foram uma tortura agonizante para a menina e seu cachorro, mas ambos não pararam, continuaram caminhando, sempre em frente.
Branca, depois de uma longa jornada desbravando o sertão, já se encontrava sem comida e sem água. A menina carregava Lampião em seus braços, da mesma forma quando o encontrou da primeira vez. Chutava o solo, mal enxergava seu caminho, parecia que as pernas se moviam sozinhas e levavam Branca para algum lugar. Outra fazenda.
Esta era mais verdejante que a fazenda de Rainha, porém menor. Branca parou diante das cercas que circundavam a fazenda e fitou as porteiras escoradas uma na outra. No alto da porteira havia algo escrito, mas ela não se preocupou de ler, abriu a porta e entrou.
Foi diretamente a porta da fazenda que levava a cozinha, a porta dos fundos. Lá encontrou um tonel de barro com água até a borda. Branca deitou Lampião no chão e mergulhou a cabeça no tonel. Segundos depois ela levanta a cabeça, espalhando água em seu corpo através dos cabelos molhados. Com as mãos em concha, Branca retira água do tonel e molha o corpo de Lampião, em seguida dá-lhe água na boca.
O cão bebeu avidamente todas as vezes que Branca lhe dava água na boca. Já com a sede saciada, Branca buscou pão para matar sua fome e de seu cachorro. Encontrou dez pães grandes de forno, feitos manualmente, no alto da mesa, Branca pegou dois pães. Um dos pães ela entregou ao cachorro, e outro ela comeu.
Os dois ficaram encolhidos na cozinha saciando a fome.
A noite não tardou a chegar e consigo trouxe os donos da fazenda. Branca dormia perto do tonel de barro, abraçada ao seu fiel amigo, pois ali era o local mais fresco de toda a fazenda. Finalmente a menina pode descansar devidamente por algumas horas.
As portas da cozinha se abriram quase ao mesmo tempo.
Homens de todos os tamanhos, larguras e cores surgiram. Eram sete homens, dentre eles havia um chamado Venâncio. Era o líder do bando e dono da fazenda. O homem entrou fazendo barulho juntamente com as portas e o resto do bando. Branca e Lampião acordaram num sobressalto.
Lampião late para os desconhecidos.
Branca recolhe-se atrás do cão e abraça os joelhos, com medo. Venâncio vê a menina sentada perto do pote e se aproxima apontando a velha espingarda que trazia consigo para ela. Branca começa chorar em desespero, balbucia palavras soltas tentando explicar o que lhe houve e porque estava ali, mas ninguém entendeu nada.
Um homem, mais velho do bando, de barba escura com leves falhamentos grisalhos se aproxima de Branca. Seu olhar terno fez Branca parar um pouco com as lágrimas.
-Oxe minha fia... O que foi que lhe aconteceu? – pergunta o velho.
-Eu morava mais Rainha, dona da fazenda Rai de Sol, só que aí eu discubri que ela quiria me vendê a um homem por três cabeça de gado branco. Eu fugi de lá, num sei há quanto tempo tô perambulando por aí mais Lampião, meu cachorro e único amigo! – Branca abraça o cão.
Lampião se mostrava desconfiado, mas tranqüilo.
-E cuma é seu nome? – pergunta Venâncio.
-Nome eu num sei não... Mas me chamavam de Branca.
-Pois pronto! Seu nome é Branca e diga isso quando lhe perguntarem! – Venâncio coloca a espingarda escorada no pote e ajuda a jovem a se levantar – Oxe que ninguém faz isso cum uma criança! Num vende nem pelo dinheiro do mundo intero! Ocê é órfã?
-Só sim. De pai, de mãe, de tudo nesse mundo, só num sô de amigo, porque Deus, na hora do sufoco, me deu Lampião e deu eu a ele!
-Pois agora ocê é do bando de Venâncio! – o homem transpassa um braço sobre os ombros da menina e sorri – E vô lhe apresentar todo mundo! Olhe: esse véi, barbudo, cum chapéu de côro é nosso mestre e professor, o nome dele é Vieira. Aquele dois, que mais parece um só, que a única diferença é um tem a oreia esquerda e o outo a oreia direita, se chamam João e Jango. E da esquerda pra direita, tu tem Neitor, Zé Pequeno, Chico das Pedas, Ariovaldo e Francismar.
-Vixe Maria! Qu’é gente!
-E agora nois tem uma muié, pra cuidá das coisa da fazenda! E quem diz é Venâncio: se a veia da Rainha vier lhe pegá nois recebe ela cum sal grosso! E quando Venâncio diz...
Os outros completaram.
-Tá dito! – e Branca riu folgadamente. E agora Branca morava naquela fazenda escondida pelo sertão.
A rainha estava louca, procurando Branca em todos os lugares que podia, pagando homens e mais homens para procurá-la pelas cidades próximas e assim ficou até que uma certa tarde um homem suado e gordo entrou em sua varanda. Vinha balançando freneticamente seu chapéu frente ao seu rosto, tentando diminuir o calor.
Colocou-se de pé na escada que dava acesso a varanda.
Respirava forçadamente, tal como o cavalo que o trouxera, lutando para não desmaiar de calor e cansaço. Rainha, vendo o homem em tal situação, mandou um empregado buscar um copo grande e cheio de água para o homem. Ao ver o copo cintilando a sua frente, o gordo adiantou-se e o pegou com avidez, bebendo todo o líquido em menos de três goles.
-Diga jagunço. O que foi que ocê descobriu?
-Ói minha senhora... – ele ainda ofegava.
-Rainha! – interrompeu a mulher, que era abanada por uma de suas empregadas negras, com convicção na voz.
-Rainha... Eu descobri onde está a menina Branca... – o homem apoiou-se no corrimão da escada e respirou – Ela tá escondida na fazenda dos sete cangaceiros, além do sertão, depois da prantação de cacto, já chegando em Potó Brilhante!
Rainha ficou em silêncio, pensando um pouco.
-Pois eu irei lá. Se aquele sinhorzinho do Miguel souber que Branca tá lá, vai numa carreira só atrás dela. Parece que o sinhorzinho se apaixonô pela menina Branca.
-A Rainha quer que eu mande uns cinco cabras lá?
-Não! Eu irei e levarei comigo mais três escravos. Se ela tentar fugir, eu pego ela numa chamada grande!
Rainha levantou-se e entrou, dirigindo-se até seu quarto para arquitetar o plano. Ela se disfarçaria de uma senhora pobre e idosa,pedindo água e um pouco de comida, Rainha sabia que Branca jamais negaria a uma idosa comida ou água. Ela teria a oportunidade perfeita para pegar a menina de surpresa para vendê-la ao Seu Severino assim que voltasse.
Na manhã seguinte, pouco antes do meio-dia, Rainha saiu a galope junto com três escravos para a fazenda dos sete cangaceiros.
Em questão de duas horas ela estava lá.
Mandou que seus escravos deixassem os cavalos prontos para uma fuga rápida e esperassem o sinal dela.
E lá foi Rainha com um vestido escuro sujo de terra e um lenço preto na cabeça. Havia se sujado de barro para ficar com o rosto irreconhecível. Chegou devagar, empurrando a porteira da fazenda, analisando o lugar para ter certeza que os cangaceiros não estariam ali.
Branca lavara alguns lençóis e estava pendurando num varal improvisado quando viu uma senhora entrando aos coxos, com um dos braços estirados para ela. A moça foi ao encontro da idosa e a ajudou a entrar na modesta casa da fazenda. Entendeu que a mulher desejava um pouco de água e um pedaço de pão.
Enquanto Branca fora buscar um copo com água e o pão, Rainha levantou-se de uma vez retirando o capuz que lhe servia de proteção ao sol e segurando-o com as duas mãos se dirigiu até a moça que cantarolava baixinho enquanto enchia o copo com água. Branca não vira quando o pano negro que tampou a vista, impossibilitando de perceber que estava sendo seqüestrada por Rainha.
A moça gritava e se contorcia nos braços da mulher. Rainha, quando percebeu que Branca tentava se libertar, gritou por um de seus escravos para levar a moça nos braços. Lampião que tudo vira não teve chance de defender sua amiga, mas ouviu atentamente o apelo da menina.
-Lampião!!! – gritava Branca – Vá chamá Venâncio!!! Ligero!!!
E o cachorro, sem demora, foi até onde o bando se encontrava, numa cidade não tão distante da fazenda.
Rainha ria e se vangloriava, pois seu plano ia às mil maravilhas. Branca estava no colo de um dos escravos, que seguia montado. A menina estava sem o capuz negro e fuzilava sua seqüestradora com os olhos.
-Sua mardita cobra criada!!! – gritava Branca – Quando Venâncio souber vai arrancar sua cabeça na faca!!!
-Ele nunca vai saber, sua cabrita, já que não tinha ninguém pra ver o que aconteceu e dizer a ele!

CONTINUA...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto I

        Que eu posso dizer...
      Desculpem-me pela modéstia, é a primeira vez que resolvo contar o que houve comigo. Não sou de falar muito, quero dizer, eu era de falar um bocado, mas agora não sou mais. Por onde começar. Talvez pelo dia. Era cedo quando acordei para sair, eu iria para a faculdade, já fazia algum tempo que eu cursava História, então eu não tinha lá grandes preocupações com horários. Eu trabalhava durante a tarde e comprara um carro, rápido eu chegava a onde eu queria se o trânsito tivesse bom. 

      O que acontece é que eu, naquele dia, acordei com vontade de ficar em casa. Eu me sentia meio angustiado, sabe? Como se alguma coisa fosse acontecer, mas eu tinha que sair. Por incrível que pareça era dia de prova e eu me sentia mais tranquilo sabendo disso. As vezes, para espantar os maus pensamentos é preciso achar algo que seja tão forte ao ponto de ocupar sua mente. Ao longo da prova eu me esqueci do sentimento, mas ele logo voltou, como se esperasse eu terminar. Fui almoçar depois que as aulas haviam encerrado.
     Notei que alguns pássaros ficavam me encarando para onde eu fosse. Me vigiavam, isso eu sabia. Aquela angústia apertava cada vez mais o meu peito e faltava-me o ar de vez em quando. Eu me questionava o que estava acontecendo. Por que eu me sentia daquela forma? Durante o almoço, uma moça jovem passou por mim. Ela me entregou um bilhete e saiu sorridente. Abri o papel com cuidado.

 "Falta pouco, muito pouco...  Tenha calma
Logo, logo em paz ficará tua alma
E estas pouca vida, tão fugaz
Perderá você, meu rapaz"
    Gelei completamente os ossos.
    Procurei a menina pelo restaurante, mas ela havia desaparecido. Meu coração quase saltava para fora de meu peito. Fui embora dali correndo para o meu carro. Eu tinha que ocupar a minha mente rapidamente. Aquilo era loucura. Alguém ameaçara a minha vida? Mas eu nunca fizera mal a ninguém e eu não conhecia quem me odiasse. Tão logo saí dos arredores da faculdade e já chegava ao meu trabalho. Eu lecionava numa escola tranquila, mas naquele dia eu não estava tranquilo.
    Entrei na sala com cautela. Como era de praxe, os alunos ainda não haviam chegado e eu tinha algum tempo para me acalmar. Foi quando eu percebi que a sala escurecera repentinamente. Olhei para as janelas escancaradas: as nuvens impediam a passagem do sol. Um vento soprou as nuvens para longe. A sala voltou a ser clara. Fui ao quadro para escrever os assuntos da aula, mas não pude fazer um único risco: minha mão paralisara quando meus olhos se depararam com a lousa. Inúmeras vezes, de inúmeras formas, estava escrito o poema que eu havia recebido no almoço.
      Corri para longe dali como um louco.
      Eu não podia ficar ali. Alguém me perseguia e queria me matar. Corri para o carro e acelerei para casa.
     Pouco me importavam os sinais vermelhos e as multas, eu dirigia sem ver o rumo. Minhas mãos tremiam e suavam frio. Os postes, as pessoas, as placas, tudo passava por mim como manchas. Dirigi por horas, até a gasolina quase acabar. Já passava das dez quando eu encontrei um posto de gasolina. Decidi voltar para casa. Quem quisesse me matar já teria desistido da ideia, já que não me encontrara na cidade, mas você sabe que as coisas são justamente o contrário daquilo que a gente pensa.
     O mundo me pareceu sufocante, então acelerei novamente cidade a dentro. Eu estaria seguro em casa. Se eu conseguisse chegar em casa ninguém me atacaria, eu ficaria bem, eu ficaria tranquilo. Desejei estar com meus pais, desejei estar em casa, mas ela não vinha por mais que o velocímetro marcasse 120km/h. Foi quando vi uma luz, uma luz forte que me cegou. Essa luz me fez ouvir um barulho agudo e ensurdecedor. O barulho fez meu carro tremer por horas. O tremor machucou-me severamente.
      Quando finalmente abri os olhos, eu estava em casa. Na cama, deitado e com a janela fechada, eu senti que era cedo demais, lembrei-me que tinha que ir para a faculdade. Tinha prova naquele dia. Mas ao me sentar na cama, uma onda de terror tomou o meu corpo e me fez tremer. Era angustiante, sufocante e eu não sabia de onde viera. Sabe aquela sensação ruim que te faz querer ficar em casa?

por Ayanny P. Costa
  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Branca de fome - Parte 3


Branca não via nada além de muita poeira e o sol forte em seu rosto. Lampião arrastava o homem pela calça através do chão quente, ele gritava e se mexia de agonia. O homem desvencilha-se de Lampião e levanta-se rapidamente, corre até seu jumento e retira uma espingarda. Aponta a arma para a cabeça de Lampião e espera o cachorro aquietar-se.
-Se ocê matar meu cachorro, eu afogo ocê na própria goela! – grita Branca, colocando-se entre o cachorro e o homem.
O homem, que na verdade era um rapaz, abaixa a arma e fita Branca. Fica pasmo com o semblante decidido da moça. Branca não era tão bela como antes. A seca, o calor e os trabalhos pesados deixaram-na feia e maltrapilha. Ao contrário do rapaz: bem vestido, com botinas engraxadas e o cabelo marrom quase penteado.
O rapaz vai até o jumento e guarda a arma.
-Como é seu nome, sinhorita? – o rapaz aproxima-se de Branca, mas fica um pouco afastado porque Lampião lhe mostrava os dentes.
-Nome eu num sei não, seu dotô... Só me chamam de Branca... – a garota manteve-se fria e direta.
-Eu num sô dotô mocinha! – brinca o rapaz.
-E eu num sô mocinha! Sô muié! E ocê? Quem é?
-Eu me chamo Miguel Lourival Sousa Rodrigues de Matos Alencar! – o rapaz falou, categoricamente, cada palavra de seu nome.
Branca deu de ombros e virou as costas para o rapaz. Voltou a encher um grande tonel de barro que logo carregaria na cabeça. Termina de encher e coloca o barril na cabeça. Lampião põe-se na frente e vai escoltando o caminho de Branca até a fazenda.
-Ei! Por que me virou as costas?! – gritou o rapaz, montado em seu jumento, tentando acompanhar os passos ligeiros de Branca, a galope.
-Ora essa! – Branca riu consigo mesma – Prum cabra que tem um nome que é quase um livro, ocê num é lá essas coisa toda não!
-Menina atrivida! Mulambenta! Num sabe com quem tá falando não?! Sô filho do coronel...
Branca interrompe parando no meio do caminho.
Ela põe uma mão na cintura.
Lampião prepara-se para um ataque.
-Num sei quem, num sei quem, num sei quem Rodrigo do Mato!!! – Branca volta a caminhar, veloz, o caminho para a fazenda. Deixando Miguel sem palavras e se roendo de raiva da ousadia de Branca.
Após algumas semanas, Branca não viu mais Miguel todas as vezes que ia buscar água no poço. Porém andava preocupada com outra coisa: Rainha andava agindo estranha desde o aniversário de Branca de 16 anos, conversando com um homem estranho que olhava imoralmente para Branca. Rainha parecia planejar algo e Branca tinha medo de tal plano.
Certa noite, Branca sem dormir, foi até a fazenda pegar alguns restos do jantar para comer e dividir com Lampião. O cachorro vigiava a choupana silenciosamente, apenas iluminada pela luz da lua, quando Branca saíra. Lampião seguiu a amiga até a casa, sorrateiro como um rato, mas atento como um calango.
Branca vê Rainha conversando com o estranho homem barbudo. Agora ele estava provisoriamente hospedado na fazenda. Os dois conversavam sobre trocas. Branca coloca-se atrás de uma mesa rústica e observa a conversa dos dois. Lampião deita-se ao seu lado.
-Pois está feito seu Sivirino! Branca, amanhã bem cedo, vai simbora com o senhor! Em troca o senhor me dá três cabeças de gado, certo?!
-Sim sinhora! Branca é minha e meus três boi branco é da sinhora! – os dois apertam as mãos selando o contrato.
Branca assombra-se com a resolução, mas se mantém em silêncio e sai devagar da sala. Logo estava na cozinha, pegando tudo o que podia de comida, colocando em uma bolsa de couro bovino que possuía e estava atrás da porta, além de água e algumas roupas que ela guardava no armário onde ficavam os cereais. Branca tinha pressa.
Lampião esperava Branca na porta, espreitando o movimento de toda a casa. Logo Rainha surge através da porta, empurrando-a com força, Lampião esconde-se embaixo da mesa.
-Onde pensa que vai com essas coisa?! –Rainha percebe o que Branca fazia. Branca vira-se para a Rainha e coloca a bolsa nas costas.
-Vô me bora!
-Oxe! E por quê?!
-Ocê vai me vender por três cabeça de boi!!! Isso num se faz cum a pessoa que passô a vida intera trabaiando e cuidando da sinhora sem recramá nenhuma veiz! Ocê é ruim feito uma cobra criada!!! Eu vô me bora e num tem um mundo que me impate!
Rainha mexe-se para agarrar Branca pelo braço.
-De jeito manera!!! Venha cá sua cabrita!!!  – Rainha grita.
Mas Lampião mordeu-lhe a perna, fazendo Rainha cair no chão como uma árvore despencando. Lampião passou por cima de Rainha e correu para o lado de fora da casa. Branca e Lampião já iam longe, cobertos pela escuridão da noite, correndo pelo sertão do Ceará, sem rumo ou direção. Sem ter noção do que poderia acontecer com os dois pelo caminho.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Branca de Fome - Parte 2



Logo chegava a conclusão que nunca mudaria.
Para não se entristecer cantava para espantar os maus pensamentos.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só!

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”
E repetia as duas estrofes inúmeras vezes, pois não sabia o resto da música. Cantava com o coração, com alegria, sentindo que apesar de sofrer tanto era uma garota de coração de carne e sentia amor. Um amor sem dono e sem motivo, apenas amor. Logo, alguns animais curiosos apareciam para ouvir sua cantoria, apesar de sua voz não ser das mais doces ou suaves.
Mas era sincera e natural.
A voz de um coração de menina.
Dois calangos, lagartos de pele escura, fitaram Branca puxar água do poço artesiano, estavam no alto de uma pedra e ouviam atentamente a menina. Atrás dela, seu fiel escudeiro, corria levantando poeira atrás de dois gordos preás, espécimes semelhantes a ratos encontrados na caatinga. Um cachorro magro, sem raça, de pelos amarelados como o solo e dentes alvos de tanto roer ossos que encontrava pelo caminho que Branca seguia. Esse é seu escudeiro e fiel confidente.
Tinha a altura da cintura da menina.
Apesar de ossudo, o cachorro era valente e protegia Branca sempre que achava que sua amiga estava em apuros. Foi à maneira que encontrou de retribuir o bem que a menina fez a ele, depois de muito suplicar a Rainha para não matá-lo. Branca o batizou de Lampião.
O cachorro fazia jus ao nome.
Além de valente, era feroz e bom caçador. Raramente faltava carne de algum animal quando Lampião ia caçar.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só! – e puxava com as forças que lhe eram cabíveis um balde cheio de água.

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”- ela cantava sem se importar.
Uma gigante nuvem de poeira se formava atrás de Branca. Os calangos fugiram ao perceber o perigo, mas Branca não percebeu. Estava tranquila e concentrada em puxar os baldes de água, cantarolando uma das poucas músicas que aprendera no velho rádio. Lampião notou a poeira chegando cada vez mais perto de sua amiga, deixou a caçada para um momento mais oportuno e saiu em disparada.
Seu corpo magro e esguio lhe era útil quando precisava correr rápido e sem perder tempo. Logo estava entre Branca e a nuvem de poeira. Começou a latir como manda o figurino, avisando a amiga do perigo. Branca vira-se e vê um corpo de aproximando dela. Seu movimento foi tão rápido quando a carreira que Lampião tomara.
Segurou o balde com firmeza e atingiu na cabeça do que parecia ser um homem sobre um animal. O homem caiu no solo e o animal, que é um jumento, relinchou de susto. Lampião continuou a latir.
A confusão estava armada.

Continua na próxima parte.