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terça-feira, 18 de junho de 2013

(6) M&L - O livro das Conquistas

06

Devagar, Lillie despiu-se diante de Mandraeke.
Ouvira incontáveis vezes naquele ano como era o ritual para a união de jovens casais e o sabia de cor. Ele ficara estático ao ver o corpo firme e juvenil diante de si. Apenas em seu pescoço Lillie deixara o colar que ela mesma criara para dar àquele que fosse seu companheiro.
-Não me importo com o seu sobrenome – ela indagou confiante – Eu o conheci como Mandraeke e somente isso. Pouco me importa de qual clã você veio, o que me importa é que meu coração me diz que você é o homem certo para mim! Minha mãe sempre me disse que quando o amor vem não tem como negá-lo ou escapar dele – Lillie caminhou até ele e retirou o colar de seu pescoço – É seu como prova de meu amor e de minha fidelidade para com você... Meu coração é seu.
Mandraeke sorri para a menina e retira sua própria roupa também. Ele não possuía um colar ou um anel para dar a ela, mas deu-lhe algo que também lhe era importante. A adaga, já retirada do urso, é entregue a Lillie. Limpa e já em sua bainha, a adaga é segurada com ternura pela menina. Mandraeke coloca o colar em seu próprio pescoço e o observa por alguns segundos. Era belo: um ramo pequenino de árvore coberto do mais límpido ouro e envolvido numa singela corrente de esmeraldas
Naquela noite fria, ambos entregaram-se às sombras de uma imensa árvore. Submersos na escuridão, embebidos pelas fragrâncias do amor, as brisas acariciavam os ventres unidos e as faces desejosas. Os toques apertados indicavam que eles estavam tão juntos quanto céu e mar no horizonte. Amaram-se.
A noite chegara ao seu esplendor e os dois, vestidos e unidos, encaravam-se quase num adeus. Mandraeke tomou a garota pela mão e a levou para sua casa em segurança. A despedida doeu no coração dos amantes. Nas sombras das árvores, Lillie segurava as mãos de seu marido. O olhar de complacência era exibido por Mandraeke, enquanto este dava um último beijo em sua amada. Neste beijo, um pressentimento cobriu Lillie de terror. Algo iria ocorrer e seu amado sofreria por causa disso.
Repentinamente vozes furiosas atraíram a atenção dos jovens.
-Meu pai! – Lillie afligiu-se – Ele descobriu você!
-Alguém deve ter nos vistos e nos denunciado! – Mandraeke agarrou com força sua espada, escondida pelos panos sujos, segurou firmemente o estranho filhote de ave que carregava em seu ombro e tratou de correr entre as tendas montadas próxima do lugar. Os vigias anunciaram que um Aequoreas corria pela cidadela.
Mandraeke ia cada vez mais rápido pelas ruas cheias de lama e de ratos nas redondezas da cidadela. No alto, poderosos grifos da guarda-real sibilavam denunciando a localização de Mandraeke para os soldados. Cavalos pisavam com força nas ruas de pedra, assustando seus mais humildes moradores. Era preciso matar o jovem garoto.
A perseguição durou até os primeiros raios do sol.
Não havia esconderijo, tampouco outros caminhos para fuga. Mandraeke chegou à via principal que levava ao mar. Sua entrada estava bloqueada. O rapaz se viu num beco sem saída. A única direção livre era para um grande abismo que desembocava no mar. Mandraeke correu para lá. Contava com a sorte para escapar.
Na torre do castelo, Lillie estava aos berros pedindo clemência ao seu pai, Grys III, o Pacífico. Aos pés de Grys, a garota implorava para que ele poupasse a vida de Mandraeke sem dizer suas razões verdadeiras. Mas o pai continuava irredutível. Tudo o que Lillie pode fazer foi debruçar-se a janela e vê o garoto correr pela rua principal.
-Cantam as ondas... – Mandraeke começa a cantarolar – O vento assobia e o mar ruge... Nas profundezas o demônio repousa... Que Deus nos ajude... Cantam as ondas – ele procurava outras saídas, mas era em vão – Sonhas comigo, princesa do Nilo... As correntes te trazem o Senhor dos Mares – Mandraeke parou – Cantam as ondas... Quando me ver, te cales. – o horizonte se estendeu perante seus olhos.
O abismo. As ondas arrebentavam sem piedade nas rochas pontiagudas no mar. O vento impiedoso empurrava Mandraeke para o antecipado salto. Atrás de si, as tropas se alinhavam para um ataque mortal. O impasse. Sua estranha ave alçara voo repentino e ganhara os céus. O que fazer? Mandraeke mirou a torre ao longe por instinto. Mesmo sem enxergar, sabia que Lillie lhe observava e sabia que ela rezava para ele escapar. O mar. Era preciso voltar ao mar. Um Viajante sempre volta ao mar.
Fechou os olhos e respirou.

Saltou.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

(5) M&L - O livro das conquistas


05
No salão do imperioso castelo dos Typhoon, envolvido por pedras pontiagudas e árvores frondosas, uma mulher caminha de um lado ao outro, impaciente, angustiada. Nas paredes frias do lugar, pinturas de seus antepassados vigiavam a mulher de longos fios presos numa trança impecável. O farfalhar de suas saias atraía a atenção de quem passasse por ali. No trono, silencioso e paciente, um homem mirava sua mulher que estava à beira do desespero. O homem, de queixo firme e aparência agradável, acariciava a cabeça de sua águia de estimação.
-Onde ela está?! Onde ela está Grys?! – bradava a mulher.
-Calma, Klea, ela logo estará aqui. Já mandei todos os meus soldados irem a sua busca. É uma questão de tempo para encontrarem ela! Paciência...
-Como pode me dizer para ter paciência e calma se sua filha está perdida na floresta, sozinha e indefesa!!! – Klea aproximou-se do trono – Minha luz! Minha linda luz! Ela nunca saiu de casa sem nós! E ainda me manda ter calma?!
O homem se levantou brutamente.
-E o que quer que eu faça?! – sua voz mansa agora estava alterada.
-Eu quero que monte em Aliestor, voe até aquela maldita floresta e traga Lillie de volta!!! – ela falou rispidamente.
-Eu ensinei Lillie a caçar e a se defender se fosse o caso – ele rebateu.
-Mas ela nunca caçou de verdade, tampouco foi atacada de verdade antes! – o rosto da mulher desfez-se em lágrimas – Eu só quero minha filha de volta!
-Não se preocupe... Metade das minhas tropas está há procura dela.
Um velho aproximou-se do casal.
O baque de sua bengala fez este o mirar. A aparência decrépita e assustadora causou repugnância tanto em Klea como em Grys. Vestido num sujo hábito marrom, o velho parou diante dos dois e exibiu um sorriso ainda mais assustador quanto a sua aparência. Na ponta de sua bengala, um cristal verde reluzia.
-Meus senhores – o velho, com dificuldade, fez a reverência – Eu tenho a informação necessária para encontrar sua jovem filha.
-Ora essa – adiantou-se Klea – Pois fale!
-Temo, minha senhora, que não poderei dar-lhe visto que não só a Cidadela de Alatu tem conhecimento do sumiço da pequena luz – o velho tossiu – E me pagariam caro para obter tão valiosa direção – um olhar perspicaz surgiu na face dele.
-O que quer em troca? – Grys se pronunciou.
-Case-me com a menina e eu lhe direi onde ela está, do contrário, outras cidadelas descobrirão a localização de Lillie...
-O quê?! Seu maldito... – Grys fora interrompido pelo soar das trombetas.
Repentinamente o salão foi invadido por inúmeros soldados envolvidos em rede púrpura e carregando suas espadas. O mais adiantado, sendo o líder do batalhão, fez reverência perante o Duxcis da Cidadela. Grys fez sinal para o líder se levantar. O homem, que possuía não mais que quarenta anos, mirou Grys.
-Senhor! Encontramos Lillie nos arredores da cidadela! – o homem pronunciou com segurança – Um jovem Viajante estava ao lado dela!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

(4) M&L - O livro das conquistas


04

Uma sensação quente subiu por seu corpo e quando deu por si, estava com os lábios presos aos de Mandraeke num forte beijo de carinho. Já se sentira apaixonada por homens, mas nunca ao ponto de beijá-los repentinamente. Os dois jovens abraçaram-se com força e compartilharam as emoções na flor da pele naquele beijo sob a luz do luar. Novos beijos brotaram do coração de Lillie e Mandraeke recebera cada qual como se fosse único. Por fim se encararam.
As respirações descompassadas, mas juntas. Os rostos suados e unidos pelas testas. Os lábios distantes, mas próximos o suficiente para se ligarem novamente. Os braços e as mãos mantinham o calor daquela paixão viva. Os olhos mirando-se sem pressa, com carinho e contemplação. Mais um beijo.
Era primeira vez na vida de Mandraeke que ele se sentira tão atraído por alguém e ainda mais sendo desconhecido. No fundo de sua alma queria ficar para sempre ao lado daquela garota de cabelos acobreados. Sentia o desejo de viver uma vida inteira com Lillie e para sempre amá-la e protegê-la. Mas não podia. Seus caminhos não poderiam se entrelaçar daquela maneira. Ela era uma Typhoon e se soubesse quem ele realmente era, o abandonaria sem pestanejar. Outro beijo com mais carinho.
-Não podemos – ele indagou.
-Tudo bem... Em minha terra garotas como eu já tem filhos – Lillie sorriu e o abraçou com força, fazendo-o retribuir o abraço com um beijo – Meu pai ficará feliz se souber que já sei com quem irei me casar no próximo verão.
-O quê? – Mandraeke afastou-se bruscamente de Lillie – Não pode... Quero dizer, não posso casar-me com você!
-Por quê? – Lillie sentiu uma intensa vontade de chorar – Você queria só se aproveitar de mim, é isso? – Mandraeke negou imediatamente. Era preciso contar a verdade. O rapaz correu até ela e a abraçou – Por que você não quer ficar comigo?
-Eu quero. Pelos céus, como eu quero ficar com você! – ele sussurrou – É primeira vez que me sinto assim, com vontade de ficar para sempre ao lado de alguém, lhe juro! Mas não posso – Lillie, angustiada, o encarou – Somos de mundos diferentes destinados a viver separados – ela se desvencilhou dele – Nascemos para sermos inimigos, não amantes! – eles se encararam.
-Do que está falando?
-Meu nome – o garoto se engasgou com as próprias lágrimas que ele insistia em prender – Meu nome é Mandraeke Aequoreas, o Amaldiçoado, filho de Dokar, líder dos Viajantes – Lillie assombrou-se. Os Viajantes era uma frota de lutadores poderosos que aportavam de ilha em ilha matando e saqueando toda cidade que viam. Eram inimigos declarados de seu povo desde muito antes do tempo.
-Então o que faz aqui? Veio me sequestrar?!
-Não! Nunca! Jamais! – Mandraeke não pode segurar mais as lágrimas – Eu fui amaldiçoado no meu nascimento e quando completei onze anos fui expulso de meu próprio lar, pela minha própria mãe! Roubei a espada que forjaram para mim, pois meu pai negou-me o direito de usá-la! – o corpo do rapaz caiu de joelhos – Estou vagando sozinho por essa terra há tantos anos com fome e cansaço, escapando de todos os perigos que o destino colocou em meu caminho... Tudo o que me restou foi minha missão de passagem... E ainda sim é morte na certa...
Lillie também chorava.
Apaixonara-se por aquele garoto magricela que há tanto tempo sofria e agora descobria que o destino arquitetara contra os dois para que nunca ficassem juntos. Mandraeke enxugou suas lágrimas e se levantou alegando estar acostumado com o sofrimento e que ela não deveria se preocupar. Sussurrava que ficaria tudo bem no fim das contas. Lillie sabia que não e também sentia que aquele era o seu escolhido.