terça-feira, 24 de julho de 2012

Uma certeza... Com certeza!

Somos todos filhos de muitas coisas... É engraçado como nos julgamos superiores, se somos todos iguais de uma maneira diferente. Brasis: deveria ser esse o nome desse mundo continental de mestiços. Sim, somos todos mestiços e filhos dos mesmos pais: índios, negros, portugueses, espanhóis, latinos, orientais, alemães, holandeses... Filhos da mesma mãe-terra e do pai-mundo. Mas que diabos de preconceito é esse que carregamos? Se não nos reclamos pela cor, julgamos pelo RH!
Que importa se você não é do mesmo estado que o meu? Viva ao nosso país! Somos inigualáveis, incopiáveis, uma experiência única! Que se dane o documento de identidade! Somos todos brasileiros! Nem americanos, nem europeus, nem qualquer outra coisa! Somos irmãos. Nossa identidade é miscigenação. Nossa pureza é a mistura! Às favas quem disser o contrário.
Assim viveremos até aceitarmos a ideia que nunca poderão nos distinguir sem o RH.
Viva a mistura, pois assim somos iguais!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

(O milagre das sombras) Prólogo - Gabriela



Era tarde, entre sete e oito horas da noite, ainda assim ela precisou sair urgentemente de casa. Era uma questão de saúde. Precisava levar seu filho ao médico, pois desconhecia o comportamento de sua criança: ele não ria, não chorava e dormia muito pouco, mesmo com os estímulos de sua mãe. Seu bebê possui quatro meses de vida e não age como tal, as dores de cabeça são causadas pela falta de tormento.             
Gabriela, a mãe de 16 anos solteira do bebê, tem pressa de chegar ao hospital Tasso Jereissati. Ela mora perto de lá, contudo, naquela noite, o hospital parecia longe.Apertou o passo.Teve um pressentimento ruim antes de sair de casa, mas seu bebê era sua prioridade agora. O vento soprou frio e cortante. Gabriela aperta a criança em seus braços para protegê-lo do frio repentino.Carregava-o em panos grossos para evitar o frio.
Ela passava do outro lado da rua na qual ficava localizada a praça da prefeitura de Juazeiro do Norte quando viu um casal empilhando corpos mutilados. Inconscientemente parou a marcha e sentiu-se obrigada a observar a curiosa cena, contudo, horrenda. Aquele fora o último momento em vida que a curiosidade de Gabriela a fez entrar em uma encrenca.Em segundos já havia retomado a marcha para o hospital.
A jovem mãe sabia quem eram aquelas pessoas empilhando corpos, outrora acharia esquisito, mas agora se tornou um fato corriqueiro e bizarro.
Quando Gabriela possuía 15 anos, há um ano antes de engravidar, recebera o sinistro convite de seu “namorado” para fazer parte de uma daquelas duas gangues que tinham cabalística mania de beber sangue de humanos. Seu namorado lhe falou em poderes sobrenaturais, em beleza eterna, em grandes riquezas e uma vida eterna, pomposas eram as vantagens de fazer parte de uma das gangues dos acordados, como eram chamados os membros por terem outra mania bizarra: andar somente à noite.
Gabriela também sabia que a rixa que as duas gangues possuíam sempre trazia a morte aos seus membros e que os combates eram tão violentos que apenas os líderes sobreviviam. Logo negara o convite. Seu “namorado”, possesso de fúria, violentou-a e, por conseguinte, Gabriela engravidou. Não denunciou as autoridades policiais quem a estuprara, e tampouco que fora estuprada, por causa do medo, mesmo com a existência vigente da Lei Maria da Penha no código penal brasileiro.
Ela é apenas mais um caso de tantas outras jovens que engravidaram precocemente. O que importava era que estava viva, por enquanto.
Continuou a passos firmes.
Até então ninguém ali lhe notara e desejava continuar assim.Repentinamente uma mão forte apertou-lhe o ombro.Gabriela temeu pela vida do seu filho. Apertou-o ainda mais em seus braços e não se moveu, apertou os olhos e esperou o segundo seguinte. Seu corpo foi virado bruscamente e no ato de girar sobre os calcanhares ela gritou, pois vira o rosto de seu agressor: um adolescente que possuía provavelmente a sua idade e sua altura, ele ofegava e expelia sangue pela boca. Estava sem um dos braços e exibia suas presas. Aquele rosto nunca lhe foi tão familiar como agora: seu ex-namorado. O acordado a toma pelo braço e a lança ao chão, fazendo o bebê cair inconscientemente ao seu lado.
O acordado salta em seu corpo e lhe morde o pescoço, sorvendo seu sangue veementemente. Gabriela grita como pode.
Com o resto de seus sentidos, a jovem mãe percebe uma figura se aproximar num leve flutuar. Uma figura fantasmagórica? Seria a morte? Não, Gabriela sabia que não. O rosto da figura, suave e angelical, encontrou o seu e o acordado foi retirado de cima de seu corpo à força. Gabriela sorriu. Um anjo viera lhe salvar.
-Um anjo... Anjo... – sua voz soa fraca e falha, quase inaudível – Salve... Meu... Salve... Salve meu... – ela tentou, ela quis gritar ao seu anjo salvador, com seu último suspiro, que salvasse seu bebê, mas tudo escureceu e sua vida esvaiu-se ao som copioso do choro de uma criança. 
João, seu filho, finalmente chorara.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ela virá, tenha certeza disso

E ela caminhava pelas ruas, sozinha, observando os pássaros que pousavam sobre os postes e os carros que passavam sem nenhuma tolerância à vida. Passos lentos e arrastados levavam-na Deus sabe para onde. Aqui acolá, ela batia em uma porta, mas era rejeitada.
Ninguém a quer, mas ela sempre bate a porta, apresentando-se educadamente e estendendo a mão. Mas a rejeitam mesmo assim. Ela não sabe quando começou a vagar, tampouco quando vai parar, mas sabe exatamente a onde ir. Sempre solidária ela estende a mão para os que estão em hora inoportuna, oferecendo-lhes uma oportunidade menos pesada a carregar.
Mas... Novamente ela é rejeitada pelo homem que dirigia um carro que capotou depois de acertar um posto, o homem estava bêbado e não reconheceu a chance de diminuir o fardo de paralisia corporal que passaria a carregar. Nem sempre ela foi negada pelas pessoas: há aquelas que a recebem até com cordialidade. Oferecem-lhe um pouco de café, suco, chá ou água, há aqueles que só lhe oferecem a gratidão pela ajuda, mas é mais que o suficiente para uma dama que trabalha sem remuneração.
E ela continuou caminhando pelas ruas sem saber se um dia receberia as férias ou demissão, mas sabe sempre aonde ir, mesmo que ninguém lhe diga. Nada tema, leitor, pois tal bondosa moça também chegará a sua porta, não há necessidade de procurá-la por aí. Aproveite o tempo antes da visita: curta seus parentes e amigos, faça coisas que gosta, descanse o corpo e a mente. Ela virá.
Sem pressa alguma.
Ela virá. Ela sempre veio. Ela sempre vem.
Batidas suaves na porta lhe avisarão que ela chegou. Uma ou duas batidas é o suficiente. Seja cortez, de-lhe um copo de água, pois a tempos que ela caminha sem descanso, ofereça uma cadeira confortável para que ela descanse seus pesados pés, converse um pouco com ela, pergunte sobre a ajuda e quem sabe ela volte depois. Mas ela virá. Relaxe, ela virá.
Ao abrir a porta, você verá uma dama de rosto distinto, com um suave sorriso e ela lhe dirá.
-Olá. É sua hora. Gostaria de me acompanhar, por favor?
E você dirá:
-Para onde iremos?
-Não é longe... Apenas me acompanhe e rápido chegaremos. É a glória que lhe espera.
-E quem é você?
-Ninguém muito importante... Apenas uma dama que quer lhe tirar um pesado fardo.
-Diga-me seu nome!
Ela ficará tímida, mas dirá em bom tom:
-Sou Morte, e sua hora chegou. Vamos?
Ela lhe dará o braço e para algum lugar ela irá lhe levar...