quarta-feira, 20 de março de 2013

Branca de fome -Parte 1


Morava numa casa distante, rústica e modesta. Mal tinha um local certo para dormir ou comer, os cômodos da casa se fundiam num único só. A casa era um cômodo. Além de um incômodo. Ficava nos fundos de uma fazenda. Morava de favor, servia de empregada doméstica para a dona da fazenda.
Uma viúva rica e muito egoísta. O calor intenso, a pouca chuva e a escassez de alimento deixava qualquer um duro como pedra e mais seco que um toco no meio da terra vazia. Todas as chamavam de Branca porque, mesmo andando léguas no sol, ela ainda ficava branca. Realmente Branca ficava vermelha ao chegar do poço que fica a um sexto de légua.
Era como os moradores indicavam a distância a ela.
Não sabia ler, escrever ou contar. Só sabia o suficiente para não desapontar sua patroa, que gostava de ser chamada de Rainha, por ter a maior fazenda da região. Branca tinha 15 anos de idade, agora estava aprendendo a ler com a cozinheira da casa grande. A cozinheira, chamada Tonha, tivera pena e ensinava as primeiras letras.
Branca se esforçava em tudo. Leitura, escrever e trabalhar. Possuía uma extrema dificuldade para escrever e ler, não conseguia juntar as ditas letras e formar palavras. Tampouco conseguia escrever. Era uma tarefa complexa comparada aos seus outros trabalhos: cozer, cozinhar, lavar, passar, consertar coisas e outros trabalhos.
-Oxe, Branca! Se esforce! Bora! B com A, dá?! – indagava Tonha, mostrando-lhe as letras em um papel surrado.
-B com A... B com A... – Branca levanta-se indignada consigo mesma – Eu num sei!!! Num adianta, Tonha!!! Num sei!!! Num consigo, nem que a vaca vire do avesso e cante ingual a sabiá!!!
- Dexe de bestera!!! Tu num me disse que queria lê pra virá dotora! Pois bora! Vamo! Leia ligero! Responda logo o que dá B com A!!!
- Mas eu num sei ,Tonha!!! Dessas coisa eu num entendo nem um caroço de piqui! Eu quero ser dotora, mas pra curar gente duente, não pra lê ou escrevê! – Branca batia o pé no chão de raiva que sentia.
- Mas minha fia... Se tu num lê, cuma é que tu vai saber o que tá iscrito nos papel que os duente traz quando tão duente?!
- Num sei! Eu pergunto e eles me diz o que tão sintindo! Pronto, aí eu passo o remédio e pronto!
-Oxe! E se o duente num se lembrar do nome do remédio? Cuma é que vãodiscobrir o diacho do remédio pra se curar?!
Branca começa a chorar. Sabe que o que Tonha diz é verdade. Sabe que vai precisar saber ler e escrever para receitar os remédios, e, principalmente, para estudar em uma Universidade de Medicina. Branca senta-se e começa a pensar, mexe no papel, olha para o alto. A jovem sempre olha para o alto quando busca uma resposta.
Uma mania, desde pequena.
- Bá! – Branca grita toda sorridente!
- Pois é isso mermo minha fia! Bá! – Tonha abraça Branca com carinho. As duas voltam a observar o papel, Branca continua treinando para memorizar bem cada nova sílaba.
- B com A, bá, B com E, bé, B com I, bi, B com O, bó, B com U, buuuu!!!!- brinca Branca fazendo careta para Tonha. A preta ria com a brincadeira, gargalhava junto com a menina.
- Branca!!! - grita a Rainha, interrompendo as risadas.
- Já vô!!! – Branca responde – Mais tarde nois treina né?
- É, minha fia! Agora vá antes que a patroa fique infezada!
Branca guarda o papel no bolso e corre em direção à sala onde a Rainha esperava impacientemente. Era o mês de setembro e estava muito quente na região, no estado do Ceará. O calor lembrava-lhe o próprio inferno na terra, Rainha abanava-se velozmente com um leque europeu que havia comprado em uma de suas viagens.
Rainha abanava-se como podia.
- Diga, Rainha! – Branca entra ofegante na sala.
-Ora sua menina atrivida!!! Esqueceu de se curvá de novo! – grita a Rainha, fechando o leque com força.
-Desculpe... – Branca curva-se e espera o desejo de sua senhora.
-Traga um copo de aluá bem gelado! E ligeiro! – disse a Rainha em tom imponente. Branca curva-se de novo e sai rapidamente.
Em instantes ela estava de volta com uma bandeja reluzente, onde no centro brilhava um copo de cristal cheio do aluá. Uma bebida feita a partir da casca de uma fruta cítrica, podendo essa ser uma laranja, um abacaxi ou tangerina, também conhecida como mexerica.
A Rainha saboreia a bebida com gosto, bebendo todo o líquido em poucos goles. Suspira de alívio e sorri ligeiramente para Branca, a garota percebe e sorri em agradecimento. A Rainha abre seu leque e começa a se abanar novamente, virando o rosto.
-Traga mais um copo! – ela coloca o copo sobre a bandeja, quase derrubando-o – Mais cuidado, sua lagartixa amarela! Se quebrar um copo meu, arranco sua língua com uma peixeira cega!!!
-Desculpe... – Branca volta rápido, mas com cuidado, para a cozinha e começa a preparar mais aluá. Sabia que Rainha era louca por aluá, talvez fosse à bebida que mais apreciasse, até mais que água. Por várias vezes, Branca ia e vinha, levando e trazendo copos e mais copos cheios de aluá para sua senhora. Até que ela ficara satisfeita.
Todos os dias de Branca eram assim. Trabalhando como escrava, mas sem reclamar, pois acreditava que a Rainha era boa de certo modo por lhe dá comida, água e lugar para dormir. Era o que lhe consolava quando pensava em sua situação medíocre. Suspirava enquanto caminhava pelo chão árido e seco, caminho que tomava para buscar água várias vezes ao dia. Imaginava o que poderia mudar sua vida.


TO BE CONTINUED...

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