quarta-feira, 27 de março de 2013

Branca de Fome - Parte 2



Logo chegava a conclusão que nunca mudaria.
Para não se entristecer cantava para espantar os maus pensamentos.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só!

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”
E repetia as duas estrofes inúmeras vezes, pois não sabia o resto da música. Cantava com o coração, com alegria, sentindo que apesar de sofrer tanto era uma garota de coração de carne e sentia amor. Um amor sem dono e sem motivo, apenas amor. Logo, alguns animais curiosos apareciam para ouvir sua cantoria, apesar de sua voz não ser das mais doces ou suaves.
Mas era sincera e natural.
A voz de um coração de menina.
Dois calangos, lagartos de pele escura, fitaram Branca puxar água do poço artesiano, estavam no alto de uma pedra e ouviam atentamente a menina. Atrás dela, seu fiel escudeiro, corria levantando poeira atrás de dois gordos preás, espécimes semelhantes a ratos encontrados na caatinga. Um cachorro magro, sem raça, de pelos amarelados como o solo e dentes alvos de tanto roer ossos que encontrava pelo caminho que Branca seguia. Esse é seu escudeiro e fiel confidente.
Tinha a altura da cintura da menina.
Apesar de ossudo, o cachorro era valente e protegia Branca sempre que achava que sua amiga estava em apuros. Foi à maneira que encontrou de retribuir o bem que a menina fez a ele, depois de muito suplicar a Rainha para não matá-lo. Branca o batizou de Lampião.
O cachorro fazia jus ao nome.
Além de valente, era feroz e bom caçador. Raramente faltava carne de algum animal quando Lampião ia caçar.
-“Que falta me faz de um bem!
Que falta me faz de um xodó!
Mas como eu não tenho ninguém...
Eu levo a vida assim, tão só! – e puxava com as forças que lhe eram cabíveis um balde cheio de água.

Mas eu só quero um amor!
Que acabe o meu sofrer!
Um xodó pra mim...
Com teu jeito, assim...
Que alegre o meu viver!”- ela cantava sem se importar.
Uma gigante nuvem de poeira se formava atrás de Branca. Os calangos fugiram ao perceber o perigo, mas Branca não percebeu. Estava tranquila e concentrada em puxar os baldes de água, cantarolando uma das poucas músicas que aprendera no velho rádio. Lampião notou a poeira chegando cada vez mais perto de sua amiga, deixou a caçada para um momento mais oportuno e saiu em disparada.
Seu corpo magro e esguio lhe era útil quando precisava correr rápido e sem perder tempo. Logo estava entre Branca e a nuvem de poeira. Começou a latir como manda o figurino, avisando a amiga do perigo. Branca vira-se e vê um corpo de aproximando dela. Seu movimento foi tão rápido quando a carreira que Lampião tomara.
Segurou o balde com firmeza e atingiu na cabeça do que parecia ser um homem sobre um animal. O homem caiu no solo e o animal, que é um jumento, relinchou de susto. Lampião continuou a latir.
A confusão estava armada.

Continua na próxima parte.

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