06

Devagar, Lillie despiu-se diante de Mandraeke. Ouvira incontáveis vezes naquele ano como era o ritual para a união de jovens casais e o sabia de cor. Ele ficara estático ao ver o corpo firme e juvenil diante de si. Apenas em seu pescoço Lillie deixara o colar que ela mesma criara para dar àquele que fosse seu companheiro.
-Não me importo
com o seu sobrenome – ela indagou confiante – Eu o conheci como Mandraeke e
somente isso. Pouco me importa de qual clã você veio, o que me importa é que
meu coração me diz que você é o homem certo para mim! Minha mãe sempre me disse
que quando o amor vem não tem como negá-lo ou escapar dele – Lillie caminhou
até ele e retirou o colar de seu pescoço – É seu como prova de meu amor e de
minha fidelidade para com você... Meu coração é seu.
Mandraeke sorri
para a menina e retira sua própria roupa também. Ele não possuía um colar ou um
anel para dar a ela, mas deu-lhe algo que também lhe era importante. A adaga,
já retirada do urso, é entregue a Lillie. Limpa e já em sua bainha, a adaga é
segurada com ternura pela menina. Mandraeke coloca o colar em seu próprio
pescoço e o observa por alguns segundos. Era belo: um ramo pequenino de árvore
coberto do mais límpido ouro e envolvido numa singela corrente de esmeraldas
Naquela noite
fria, ambos entregaram-se às sombras de uma imensa árvore. Submersos na
escuridão, embebidos pelas fragrâncias do amor, as brisas acariciavam os
ventres unidos e as faces desejosas. Os toques apertados indicavam que eles
estavam tão juntos quanto céu e mar no horizonte. Amaram-se.
A noite chegara
ao seu esplendor e os dois, vestidos e unidos, encaravam-se quase num adeus. Mandraeke
tomou a garota pela mão e a levou para sua casa em segurança. A despedida doeu
no coração dos amantes. Nas sombras das árvores, Lillie segurava as mãos de seu
marido. O olhar de complacência era exibido por Mandraeke, enquanto este dava
um último beijo em sua amada. Neste beijo, um pressentimento cobriu Lillie de
terror. Algo iria ocorrer e seu amado sofreria por causa disso.
Repentinamente
vozes furiosas atraíram a atenção dos jovens.
-Meu pai! –
Lillie afligiu-se – Ele descobriu você!
-Alguém deve ter
nos vistos e nos denunciado! – Mandraeke agarrou com força sua espada,
escondida pelos panos sujos, segurou firmemente o estranho filhote de ave que
carregava em seu ombro e tratou de correr entre as tendas montadas próxima do
lugar. Os vigias anunciaram que um Aequoreas corria pela cidadela.
Mandraeke ia
cada vez mais rápido pelas ruas cheias de lama e de ratos nas redondezas da
cidadela. No alto, poderosos grifos da guarda-real sibilavam denunciando a
localização de Mandraeke para os soldados. Cavalos pisavam com força nas ruas
de pedra, assustando seus mais humildes moradores. Era preciso matar o jovem garoto.
A perseguição
durou até os primeiros raios do sol.
Não havia
esconderijo, tampouco outros caminhos para fuga. Mandraeke chegou à via
principal que levava ao mar. Sua entrada estava bloqueada. O rapaz se viu num
beco sem saída. A única direção livre era para um grande abismo que desembocava
no mar. Mandraeke correu para lá. Contava com a sorte para escapar.
Na torre do
castelo, Lillie estava aos berros pedindo clemência ao seu pai, Grys III, o
Pacífico. Aos pés de Grys, a garota implorava para que ele poupasse a vida de Mandraeke
sem dizer suas razões verdadeiras. Mas o pai continuava irredutível. Tudo o que
Lillie pode fazer foi debruçar-se a janela e vê o garoto correr pela rua
principal.
-Cantam as ondas...
– Mandraeke começa a cantarolar – O vento assobia e o mar ruge... Nas
profundezas o demônio repousa... Que Deus nos ajude... Cantam as ondas – ele
procurava outras saídas, mas era em vão – Sonhas comigo, princesa do Nilo... As
correntes te trazem o Senhor dos Mares – Mandraeke parou – Cantam as ondas... Quando
me ver, te cales. – o horizonte se estendeu perante seus olhos.
O abismo. As
ondas arrebentavam sem piedade nas rochas pontiagudas no mar. O vento impiedoso
empurrava Mandraeke para o antecipado salto. Atrás de si, as tropas se
alinhavam para um ataque mortal. O impasse. Sua estranha ave alçara voo
repentino e ganhara os céus. O que fazer? Mandraeke mirou a torre ao longe por
instinto. Mesmo sem enxergar, sabia que Lillie lhe observava e sabia que ela
rezava para ele escapar. O mar. Era preciso voltar ao mar. Um Viajante sempre volta
ao mar.
Fechou os olhos
e respirou.
Saltou.

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