quinta-feira, 18 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite

Conto I

        Que eu posso dizer...
      Desculpem-me pela modéstia, é a primeira vez que resolvo contar o que houve comigo. Não sou de falar muito, quero dizer, eu era de falar um bocado, mas agora não sou mais. Por onde começar. Talvez pelo dia. Era cedo quando acordei para sair, eu iria para a faculdade, já fazia algum tempo que eu cursava História, então eu não tinha lá grandes preocupações com horários. Eu trabalhava durante a tarde e comprara um carro, rápido eu chegava a onde eu queria se o trânsito tivesse bom. 

      O que acontece é que eu, naquele dia, acordei com vontade de ficar em casa. Eu me sentia meio angustiado, sabe? Como se alguma coisa fosse acontecer, mas eu tinha que sair. Por incrível que pareça era dia de prova e eu me sentia mais tranquilo sabendo disso. As vezes, para espantar os maus pensamentos é preciso achar algo que seja tão forte ao ponto de ocupar sua mente. Ao longo da prova eu me esqueci do sentimento, mas ele logo voltou, como se esperasse eu terminar. Fui almoçar depois que as aulas haviam encerrado.
     Notei que alguns pássaros ficavam me encarando para onde eu fosse. Me vigiavam, isso eu sabia. Aquela angústia apertava cada vez mais o meu peito e faltava-me o ar de vez em quando. Eu me questionava o que estava acontecendo. Por que eu me sentia daquela forma? Durante o almoço, uma moça jovem passou por mim. Ela me entregou um bilhete e saiu sorridente. Abri o papel com cuidado.

 "Falta pouco, muito pouco...  Tenha calma
Logo, logo em paz ficará tua alma
E estas pouca vida, tão fugaz
Perderá você, meu rapaz"
    Gelei completamente os ossos.
    Procurei a menina pelo restaurante, mas ela havia desaparecido. Meu coração quase saltava para fora de meu peito. Fui embora dali correndo para o meu carro. Eu tinha que ocupar a minha mente rapidamente. Aquilo era loucura. Alguém ameaçara a minha vida? Mas eu nunca fizera mal a ninguém e eu não conhecia quem me odiasse. Tão logo saí dos arredores da faculdade e já chegava ao meu trabalho. Eu lecionava numa escola tranquila, mas naquele dia eu não estava tranquilo.
    Entrei na sala com cautela. Como era de praxe, os alunos ainda não haviam chegado e eu tinha algum tempo para me acalmar. Foi quando eu percebi que a sala escurecera repentinamente. Olhei para as janelas escancaradas: as nuvens impediam a passagem do sol. Um vento soprou as nuvens para longe. A sala voltou a ser clara. Fui ao quadro para escrever os assuntos da aula, mas não pude fazer um único risco: minha mão paralisara quando meus olhos se depararam com a lousa. Inúmeras vezes, de inúmeras formas, estava escrito o poema que eu havia recebido no almoço.
      Corri para longe dali como um louco.
      Eu não podia ficar ali. Alguém me perseguia e queria me matar. Corri para o carro e acelerei para casa.
     Pouco me importavam os sinais vermelhos e as multas, eu dirigia sem ver o rumo. Minhas mãos tremiam e suavam frio. Os postes, as pessoas, as placas, tudo passava por mim como manchas. Dirigi por horas, até a gasolina quase acabar. Já passava das dez quando eu encontrei um posto de gasolina. Decidi voltar para casa. Quem quisesse me matar já teria desistido da ideia, já que não me encontrara na cidade, mas você sabe que as coisas são justamente o contrário daquilo que a gente pensa.
     O mundo me pareceu sufocante, então acelerei novamente cidade a dentro. Eu estaria seguro em casa. Se eu conseguisse chegar em casa ninguém me atacaria, eu ficaria bem, eu ficaria tranquilo. Desejei estar com meus pais, desejei estar em casa, mas ela não vinha por mais que o velocímetro marcasse 120km/h. Foi quando vi uma luz, uma luz forte que me cegou. Essa luz me fez ouvir um barulho agudo e ensurdecedor. O barulho fez meu carro tremer por horas. O tremor machucou-me severamente.
      Quando finalmente abri os olhos, eu estava em casa. Na cama, deitado e com a janela fechada, eu senti que era cedo demais, lembrei-me que tinha que ir para a faculdade. Tinha prova naquele dia. Mas ao me sentar na cama, uma onda de terror tomou o meu corpo e me fez tremer. Era angustiante, sufocante e eu não sabia de onde viera. Sabe aquela sensação ruim que te faz querer ficar em casa?

por Ayanny P. Costa
  

Um comentário:

  1. Sei sim!!!
    P-A-R-A-B-É-N-S!!!!
    Seu texto me deixou arrepiaaaaadaaaa e o fundo musical então....

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