Conto II
Uma
pessoa me procurou por longos três meses. Ela queria saber mais sobre o que
aconteceu comigo e com a minha família. É curioso como pequenas coisas podem
mudar o mundo, não acha? Eu decidi falar para essa pessoa, era uma escritora
para um blog pouco conhecido, então concordei em contar a minha história. Já
que era desconhecido, então minha história ficaria no anonimato.
Resolvi
contar, então, o que se sucedera naquela noite. Eu estava voltando do trabalho,
eram mais ou menos 10 horas da noite. Eu trabalhava, naquela época, como
vendedora de uma loja no shopping da cidade. O céu estava vermelho. Iria chover
em alguns minutos, então pensei que o ônibus, onde eu estava, poderia ir um
pouco mais rápido para evitar a chuva. Quando faltava apenas um quarteirão para
minha casa, eu desci do ônibus e corri para casa. Alguns repingos começavam a
cair.
Na
porta de casa, sentado e me fitando com penúria, um gato rajado de olhos de
estranha cor. Eram negros por completo. Achei que o pobre gato fosse cego, e
sempre gostei de gatos, então o deixei entrar em casa. A chuva engrossou. Os
pingos d’água pareciam bolas de gude atingindo o teto. Os trovões e os
relâmpagos pareciam despontar no terreno ao lado de casa. Eu tremia nas bases a
cada barulho ensurdecedor que os fenômenos produziam. Aquela chuva não era
comum.
Deixei
o gato na sala e fui ver o resto da casa.
Tudo
estava escuro e trancado. Meus pais dormiam. Olhei todas as portas. Tudo
trancado. Respirei fundo. Eu achei que a casa estava segura. Fui tomar banho
para dormir. Eu estava cansada naquele dia.
No
meio da madrugada eu acordei assustada. Saí do quarto às pressas e fui até a
sala. Eu tinha me lembrado do gato e da porta da frente. A chuva ainda estava
forte e os relâmpagos iluminavam a casa de vez em quando.
Deparei-me
com a porta escancarada e os ventos empurrando a chuva pelo vão. Fui até a
porta e fechei-a. Assombrei-me com a visão que tive a seguir: a parte detrás da
porta estava completamente marcada por rachaduras enormes. Parecia que uma
coisa com garras enormes arranhara a porta. Nas bordas de algumas rachaduras vi
marcas vermelhas que se estendiam até o chão. Segui com o olhar até ver que um
caminho feito por um líquido vermelho próximo aos meus pés.
O
cheiro forte inundou as minhas narinas. Era sangue. Segui o caminho até o
quarto de meus pais. Eu estava apavorada. Minhas pernas tremiam e eu mal
conseguia respirar. Empurrei a porta do quarto de meus pais. Dentro do quarto
tudo estava destruído e havia sangue para todos os lados. Olhei para o chão. O
felino me fitava intensamente, como se quisesse me dizer algo.
Comecei
a caminhar para trás e ele me acompanhou. O gato sibilou para mim e tal me fez
cair no chão. O gato saltou sobre mim e me abocanhou. Tentei gritar, mas o meu
próprio sangue me sufocava. Meu corpo tremeu violentamente e eu desmaiei.
Quando novamente abri os olhos eu estava numa cama de hospital. Meus pais
conversavam com médicos sem nem notar que eu acordara. Olhei para o lado, para
a janela, o gato estava lá e finalmente eu pude ver porque seus olhos eram
negros: eram órbitas vazias. Quis gritar, mas minha boca estava enfaixada.
O
gato atravessou a janela e veio até, silenciosamente, sem pressa, com certos
ares irônicos. Ele escancarou a boca: também não possuía língua, além dos
olhos. Chorei de terror. O animal se pôs sobre mim e fechou a boca,
simultaneamente que fechava os olhos. Finalmente meus pais se voltaram para
mim, mas eu vi que eles também não possuíam nem língua nem olhos. Na parede do quarto
estava escrito em letras garrafais: “Que foi? O gato comeu a sua língua?”.
Meses
depois eu fui internada num hospital psiquiátrico. Chamaram-me de
esquizofrênica porque esse gato sempre me aparece nos dias de chuva.
Não
sei quem me internou, não sei de meus pais, se estão vivos ou não, não sei o
que acontece lá fora por estar presa aqui dentro. Tudo o que sei é um gato
mudou a minha vida. Só isso.
por Ayanny P. Costa
Texto de arrepiar, Nona....
ResponderExcluirQue coisa hein?!