segunda-feira, 22 de abril de 2013

Contos da Meia-Noite


Conto II
Uma pessoa me procurou por longos três meses. Ela queria saber mais sobre o que aconteceu comigo e com a minha família. É curioso como pequenas coisas podem mudar o mundo, não acha? Eu decidi falar para essa pessoa, era uma escritora para um blog pouco conhecido, então concordei em contar a minha história. Já que era desconhecido, então minha história ficaria no anonimato.
Resolvi contar, então, o que se sucedera naquela noite. Eu estava voltando do trabalho, eram mais ou menos 10 horas da noite. Eu trabalhava, naquela época, como vendedora de uma loja no shopping da cidade. O céu estava vermelho. Iria chover em alguns minutos, então pensei que o ônibus, onde eu estava, poderia ir um pouco mais rápido para evitar a chuva. Quando faltava apenas um quarteirão para minha casa, eu desci do ônibus e corri para casa. Alguns repingos começavam a cair.
Na porta de casa, sentado e me fitando com penúria, um gato rajado de olhos de estranha cor. Eram negros por completo. Achei que o pobre gato fosse cego, e sempre gostei de gatos, então o deixei entrar em casa. A chuva engrossou. Os pingos d’água pareciam bolas de gude atingindo o teto. Os trovões e os relâmpagos pareciam despontar no terreno ao lado de casa. Eu tremia nas bases a cada barulho ensurdecedor que os fenômenos produziam. Aquela chuva não era comum.
Deixei o gato na sala e fui ver o resto da casa.
Tudo estava escuro e trancado. Meus pais dormiam. Olhei todas as portas. Tudo trancado. Respirei fundo. Eu achei que a casa estava segura. Fui tomar banho para dormir. Eu estava cansada naquele dia.
No meio da madrugada eu acordei assustada. Saí do quarto às pressas e fui até a sala. Eu tinha me lembrado do gato e da porta da frente. A chuva ainda estava forte e os relâmpagos iluminavam a casa de vez em quando.
Deparei-me com a porta escancarada e os ventos empurrando a chuva pelo vão. Fui até a porta e fechei-a. Assombrei-me com a visão que tive a seguir: a parte detrás da porta estava completamente marcada por rachaduras enormes. Parecia que uma coisa com garras enormes arranhara a porta. Nas bordas de algumas rachaduras vi marcas vermelhas que se estendiam até o chão. Segui com o olhar até ver que um caminho feito por um líquido vermelho próximo aos meus pés.
O cheiro forte inundou as minhas narinas. Era sangue. Segui o caminho até o quarto de meus pais. Eu estava apavorada. Minhas pernas tremiam e eu mal conseguia respirar. Empurrei a porta do quarto de meus pais. Dentro do quarto tudo estava destruído e havia sangue para todos os lados. Olhei para o chão. O felino me fitava intensamente, como se quisesse me dizer algo.
Comecei a caminhar para trás e ele me acompanhou. O gato sibilou para mim e tal me fez cair no chão. O gato saltou sobre mim e me abocanhou. Tentei gritar, mas o meu próprio sangue me sufocava. Meu corpo tremeu violentamente e eu desmaiei. Quando novamente abri os olhos eu estava numa cama de hospital. Meus pais conversavam com médicos sem nem notar que eu acordara. Olhei para o lado, para a janela, o gato estava lá e finalmente eu pude ver porque seus olhos eram negros: eram órbitas vazias. Quis gritar, mas minha boca estava enfaixada.
O gato atravessou a janela e veio até, silenciosamente, sem pressa, com certos ares irônicos. Ele escancarou a boca: também não possuía língua, além dos olhos. Chorei de terror. O animal se pôs sobre mim e fechou a boca, simultaneamente que fechava os olhos. Finalmente meus pais se voltaram para mim, mas eu vi que eles também não possuíam nem língua nem olhos. Na parede do quarto estava escrito em letras garrafais: “Que foi? O gato comeu a sua língua?”.
Meses depois eu fui internada num hospital psiquiátrico. Chamaram-me de esquizofrênica porque esse gato sempre me aparece nos dias de chuva.
Não sei quem me internou, não sei de meus pais, se estão vivos ou não, não sei o que acontece lá fora por estar presa aqui dentro. Tudo o que sei é um gato mudou a minha vida. Só isso.

por Ayanny P. Costa

Um comentário: