terça-feira, 11 de outubro de 2011

Precioso diário de um finado agricultor

Virei a última página daquele diário. Arrancara-me tantas lágrimas aquela leitura, que eu poderia encher um copo. Quem diria que o meu finado tio escrevia tão bem? O curioso é que ele era um mero agricultor. Suspiro ao perceber que o dia amanhecia: o sol organiza calmamente seus raios atrás de cada nuvem de chuva de ontem. A casa estava em silêncio.
Todos dormiam, menos eu.
Estou sentada na sala, diante de uma janela. A paisagem lá fora é bela, mas estou focada no diário que acabei de ler, ele está em meu colo. Novamente folheio as páginas devagar, desejando sentir tudo de novo. Alegria, tristeza, indignação. Como meu tio escrevia bem.
-Se fosse escritor, talvez estivesse vivo, mas se fosse escritor perderia sua ingenuidade literária... Ai, ai, tio querido... O senhor me fará falta verdadeiramente! - sorri ao perceber uma tímida lágrima molhando minhas bochechas. Uma brisa secou a lágrima.
Meu tio fora um aplicado agricultor, gostava de descrever sua roça todas as vezes que amanhecia. Eu era menina quando ele me acordava às cinco e meia da manhã para ouvir sua "narração-descrição": narrava o nascer-do-sol descrevendo sua roça. Algo simples, mas prazeroso.
Agora, vendo o sol nascer através de minha janela, eu sinto as mesmas emoções daquela época tão bela, lembranças agridoces, um sentimento precioso. Suspiro, foi um esforço mental, mas valera a pena. Acaricio a capa do diário uma última vez e o guardo na estante, aquela carícia foi um abraço de adeus. Bom descanso, meu finado, precioso, tio escritor-agricultor. Vou para o quarto dormir. Já eram cinco da manhã.

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