Branca não via
nada além de muita poeira e o sol forte em seu rosto. Lampião arrastava o homem
pela calça através do chão quente, ele gritava e se mexia de agonia. O homem
desvencilha-se de Lampião e levanta-se rapidamente, corre até seu jumento e
retira uma espingarda. Aponta a arma para a cabeça de Lampião e espera o
cachorro aquietar-se.
-Se ocê matar
meu cachorro, eu afogo ocê na própria goela! – grita Branca, colocando-se entre
o cachorro e o homem.
O homem, que na
verdade era um rapaz, abaixa a arma e fita Branca. Fica pasmo com o semblante
decidido da moça. Branca não era tão bela como antes. A seca, o calor e os
trabalhos pesados deixaram-na feia e maltrapilha. Ao contrário do rapaz: bem
vestido, com botinas engraxadas e o cabelo marrom quase penteado.
O rapaz vai até
o jumento e guarda a arma.
-Como é seu
nome, sinhorita? – o rapaz aproxima-se de Branca, mas fica um pouco afastado
porque Lampião lhe mostrava os dentes.
-Nome eu num sei
não, seu dotô... Só me chamam de Branca... – a garota manteve-se fria e direta.
-Eu num sô dotô
mocinha! – brinca o rapaz.
-E eu num sô mocinha!
Sô muié! E ocê? Quem é?
-Eu me chamo
Miguel Lourival Sousa Rodrigues de Matos Alencar! – o rapaz falou,
categoricamente, cada palavra de seu nome.
Branca deu de
ombros e virou as costas para o rapaz. Voltou a encher um grande tonel de barro
que logo carregaria na cabeça. Termina de encher e coloca o barril na cabeça.
Lampião põe-se na frente e vai escoltando o caminho de Branca até a fazenda.
-Ei! Por que me
virou as costas?! – gritou o rapaz, montado em seu jumento, tentando acompanhar
os passos ligeiros de Branca, a galope.
-Ora essa! –
Branca riu consigo mesma – Prum cabra que tem um nome que é quase um livro, ocê
num é lá essas coisa toda não!
-Menina atrivida!
Mulambenta! Num sabe com quem tá falando não?! Sô filho do coronel...
Branca
interrompe parando no meio do caminho.
Ela põe uma mão
na cintura.
Lampião
prepara-se para um ataque.
-Num sei quem,
num sei quem, num sei quem Rodrigo do Mato!!! – Branca volta a caminhar, veloz,
o caminho para a fazenda. Deixando Miguel sem palavras e se roendo de raiva da
ousadia de Branca.
Após algumas
semanas, Branca não viu mais Miguel todas as vezes que ia buscar água no poço.
Porém andava preocupada com outra coisa: Rainha andava agindo estranha desde o
aniversário de Branca de 16 anos, conversando com um homem estranho que olhava
imoralmente para Branca. Rainha parecia planejar algo e Branca tinha medo de
tal plano.
Certa noite,
Branca sem dormir, foi até a fazenda pegar alguns restos do jantar para comer e
dividir com Lampião. O cachorro vigiava a choupana silenciosamente, apenas
iluminada pela luz da lua, quando Branca saíra. Lampião seguiu a amiga até a
casa, sorrateiro como um rato, mas atento como um calango.
Branca vê Rainha
conversando com o estranho homem barbudo. Agora ele estava provisoriamente
hospedado na fazenda. Os dois conversavam sobre trocas. Branca coloca-se atrás
de uma mesa rústica e observa a conversa dos dois. Lampião deita-se ao seu
lado.
-Pois está feito
seu Sivirino! Branca, amanhã bem cedo, vai simbora com o senhor! Em troca o
senhor me dá três cabeças de gado, certo?!
-Sim sinhora!
Branca é minha e meus três boi branco é da sinhora! – os dois apertam as mãos
selando o contrato.
Branca assombra-se
com a resolução, mas se mantém em silêncio e sai devagar da sala. Logo estava
na cozinha, pegando tudo o que podia de comida, colocando em uma bolsa de couro
bovino que possuía e estava atrás da porta, além de água e algumas roupas que
ela guardava no armário onde ficavam os cereais. Branca tinha pressa.
Lampião esperava
Branca na porta, espreitando o movimento de toda a casa. Logo Rainha surge
através da porta, empurrando-a com força, Lampião esconde-se embaixo da mesa.
-Onde pensa que
vai com essas coisa?! –Rainha percebe o que Branca fazia. Branca vira-se para a
Rainha e coloca a bolsa nas costas.
-Vô me bora!
-Oxe! E por
quê?!
-Ocê vai me
vender por três cabeça de boi!!! Isso num se faz cum a pessoa que passô a vida
intera trabaiando e cuidando da sinhora sem recramá nenhuma veiz! Ocê é ruim
feito uma cobra criada!!! Eu vô me bora e num tem um mundo que me impate!
Rainha mexe-se
para agarrar Branca pelo braço.
-De jeito
manera!!! Venha cá sua cabrita!!! – Rainha grita.
Mas Lampião
mordeu-lhe a perna, fazendo Rainha cair no chão como uma árvore despencando.
Lampião passou por cima de Rainha e correu para o lado de fora da casa. Branca
e Lampião já iam longe, cobertos pela escuridão da noite, correndo pelo sertão
do Ceará, sem rumo ou direção. Sem ter noção do que poderia acontecer com os
dois pelo caminho.
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