Longas as noites
de medo e escuridão que Branca passou abraçada a Lampião, com medo não de
monstros fantasiados que toda criança tem medo, mas dos animais que por aí
vagavam, além dos cangaceiros. Homens que não seguiam a lei, que matavam as
pessoas que cruzavam o seu caminho e não obedeciam a suas ordens. Os dias
quentes e secos foram uma tortura agonizante para a menina e seu cachorro, mas
ambos não pararam, continuaram caminhando, sempre em frente.
Branca, depois
de uma longa jornada desbravando o sertão, já se encontrava sem comida e sem
água. A menina carregava Lampião em seus braços, da mesma forma quando o
encontrou da primeira vez. Chutava o solo, mal enxergava seu caminho, parecia
que as pernas se moviam sozinhas e levavam Branca para algum lugar. Outra
fazenda.
Esta era mais
verdejante que a fazenda de Rainha, porém menor. Branca parou diante das cercas
que circundavam a fazenda e fitou as porteiras escoradas uma na outra. No alto
da porteira havia algo escrito, mas ela não se preocupou de ler, abriu a porta
e entrou.
Foi diretamente
a porta da fazenda que levava a cozinha, a porta dos fundos. Lá encontrou um
tonel de barro com água até a borda. Branca deitou Lampião no chão e mergulhou
a cabeça no tonel. Segundos depois ela levanta a cabeça, espalhando água em seu
corpo através dos cabelos molhados. Com as mãos em concha, Branca retira água
do tonel e molha o corpo de Lampião, em seguida dá-lhe água na boca.
O cão bebeu
avidamente todas as vezes que Branca lhe dava água na boca. Já com a sede
saciada, Branca buscou pão para matar sua fome e de seu cachorro. Encontrou dez
pães grandes de forno, feitos manualmente, no alto da mesa, Branca pegou dois
pães. Um dos pães ela entregou ao cachorro, e outro ela comeu.
Os dois ficaram
encolhidos na cozinha saciando a fome.
A noite não
tardou a chegar e consigo trouxe os donos da fazenda. Branca dormia perto do
tonel de barro, abraçada ao seu fiel amigo, pois ali era o local mais fresco de
toda a fazenda. Finalmente a menina pode descansar devidamente por algumas
horas.
As portas da
cozinha se abriram quase ao mesmo tempo.
Homens de todos
os tamanhos, larguras e cores surgiram. Eram sete homens, dentre eles havia um
chamado Venâncio. Era o líder do bando e dono da fazenda. O homem entrou
fazendo barulho juntamente com as portas e o resto do bando. Branca e Lampião
acordaram num sobressalto.
Lampião late
para os desconhecidos.
Branca
recolhe-se atrás do cão e abraça os joelhos, com medo. Venâncio vê a menina
sentada perto do pote e se aproxima apontando a velha espingarda que trazia
consigo para ela. Branca começa chorar em desespero, balbucia palavras soltas
tentando explicar o que lhe houve e porque estava ali, mas ninguém entendeu
nada.
Um homem, mais velho
do bando, de barba escura com leves falhamentos grisalhos se aproxima de
Branca. Seu olhar terno fez Branca parar um pouco com as lágrimas.
-Oxe minha
fia... O que foi que lhe aconteceu? – pergunta o velho.
-Eu morava mais
Rainha, dona da fazenda Rai de Sol, só que aí eu discubri que ela quiria me
vendê a um homem por três cabeça de gado branco. Eu fugi de lá, num sei há
quanto tempo tô perambulando por aí mais Lampião, meu cachorro e único amigo! –
Branca abraça o cão.
Lampião se
mostrava desconfiado, mas tranqüilo.
-E cuma é seu
nome? – pergunta Venâncio.
-Nome eu num sei
não... Mas me chamavam de Branca.
-Pois pronto!
Seu nome é Branca e diga isso quando lhe perguntarem! – Venâncio coloca a
espingarda escorada no pote e ajuda a jovem a se levantar – Oxe que ninguém faz
isso cum uma criança! Num vende nem pelo dinheiro do mundo intero! Ocê é órfã?
-Só sim. De pai,
de mãe, de tudo nesse mundo, só num sô de amigo, porque Deus, na hora do
sufoco, me deu Lampião e deu eu a ele!
-Pois agora ocê
é do bando de Venâncio! – o homem transpassa um braço sobre os ombros da menina
e sorri – E vô lhe apresentar todo mundo! Olhe: esse véi, barbudo, cum chapéu
de côro é nosso mestre e professor, o nome dele é Vieira. Aquele dois, que mais
parece um só, que a única diferença é um tem a oreia esquerda e o outo a oreia
direita, se chamam João e Jango. E da esquerda pra direita, tu tem Neitor, Zé
Pequeno, Chico das Pedas, Ariovaldo e Francismar.
-Vixe Maria!
Qu’é gente!
-E agora nois
tem uma muié, pra cuidá das coisa da fazenda! E quem diz é Venâncio: se a veia
da Rainha vier lhe pegá nois recebe ela cum sal grosso! E quando Venâncio
diz...
Os outros
completaram.
-Tá dito! – e
Branca riu folgadamente. E agora Branca morava naquela fazenda escondida pelo
sertão.
A rainha estava
louca, procurando Branca em todos os lugares que podia, pagando homens e mais
homens para procurá-la pelas cidades próximas e assim ficou até que uma certa
tarde um homem suado e gordo entrou em sua varanda. Vinha balançando
freneticamente seu chapéu frente ao seu rosto, tentando diminuir o calor.
Colocou-se de pé
na escada que dava acesso a varanda.
Respirava
forçadamente, tal como o cavalo que o trouxera, lutando para não desmaiar de
calor e cansaço. Rainha, vendo o homem em tal situação, mandou um empregado
buscar um copo grande e cheio de água para o homem. Ao ver o copo cintilando a
sua frente, o gordo adiantou-se e o pegou com avidez, bebendo todo o líquido em
menos de três goles.
-Diga jagunço. O
que foi que ocê descobriu?
-Ói minha senhora...
– ele ainda ofegava.
-Rainha! –
interrompeu a mulher, que era abanada por uma de suas empregadas negras, com
convicção na voz.
-Rainha... Eu
descobri onde está a menina Branca... – o homem apoiou-se no corrimão da escada
e respirou – Ela tá escondida na fazenda dos sete cangaceiros, além do sertão,
depois da prantação de cacto, já chegando em Potó Brilhante!
Rainha ficou em
silêncio, pensando um pouco.
-Pois eu irei
lá. Se aquele sinhorzinho do Miguel souber que Branca tá lá, vai numa carreira
só atrás dela. Parece que o sinhorzinho se apaixonô pela menina Branca.
-A Rainha quer
que eu mande uns cinco cabras lá?
-Não! Eu irei e
levarei comigo mais três escravos. Se ela tentar fugir, eu pego ela numa
chamada grande!
Rainha
levantou-se e entrou, dirigindo-se até seu quarto para arquitetar o plano. Ela
se disfarçaria de uma senhora pobre e idosa,pedindo água e um pouco de comida,
Rainha sabia que Branca jamais negaria a uma idosa comida ou água. Ela teria a
oportunidade perfeita para pegar a menina de surpresa para vendê-la ao Seu
Severino assim que voltasse.
Na manhã
seguinte, pouco antes do meio-dia, Rainha saiu a galope junto com três escravos
para a fazenda dos sete cangaceiros.
Em questão de
duas horas ela estava lá.
Mandou que seus
escravos deixassem os cavalos prontos para uma fuga rápida e esperassem o sinal
dela.
Branca lavara
alguns lençóis e estava pendurando num varal improvisado quando viu uma senhora
entrando aos coxos, com um dos braços estirados para ela. A moça foi ao
encontro da idosa e a ajudou a entrar na modesta casa da fazenda. Entendeu que
a mulher desejava um pouco de água e um pedaço de pão.
Enquanto Branca
fora buscar um copo com água e o pão, Rainha levantou-se de uma vez retirando o
capuz que lhe servia de proteção ao sol e segurando-o com as duas mãos se
dirigiu até a moça que cantarolava baixinho enquanto enchia o copo com água. Branca
não vira quando o pano negro que tampou a vista, impossibilitando de perceber
que estava sendo seqüestrada por Rainha.
A moça gritava e
se contorcia nos braços da mulher. Rainha, quando percebeu que Branca tentava
se libertar, gritou por um de seus escravos para levar a moça nos braços.
Lampião que tudo vira não teve chance de defender sua amiga, mas ouviu
atentamente o apelo da menina.
-Lampião!!! –
gritava Branca – Vá chamá Venâncio!!! Ligero!!!
E o cachorro,
sem demora, foi até onde o bando se encontrava, numa cidade não tão distante da
fazenda.
Rainha ria e se
vangloriava, pois seu plano ia às mil maravilhas. Branca estava no colo de um
dos escravos, que seguia montado. A menina estava sem o capuz negro e fuzilava
sua seqüestradora com os olhos.
-Sua mardita
cobra criada!!! – gritava Branca – Quando Venâncio souber vai arrancar sua
cabeça na faca!!!
-Ele nunca vai
saber, sua cabrita, já que não tinha ninguém pra ver o que aconteceu e dizer a
ele!
CONTINUA...


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