Branca mostrou a
língua a Rainha quando a mesma virou o rosto para frente. A menina temia que
Venâncio não soubesse o que Lampião estava querendo demonstrar no momento em
que o cão o encontrasse. Temia que não fosse salva e temia, ainda mais, ser
vendida a um homem que desconhecia as mania e que se mostrava vulgar.
Rápido como um
pé de vento Lampião encontrou o bando de Venâncio. Seu faro aguçado jamais lhe
abandonara, principalmente nos momentos mais precisos como aquele. Ao ver o
ancião de chapéu de couro escorado a um juazeiro e Venâncio sentado a sombra do
mesmo partiu em disparada até ele.
Cada segundo era
importante.
Lampião tinha
que ser preciso e direto, se não sua amiga iria para longe e ele nunca mais a
veria.
O resto dos
homens conversava folgadamente sobre banalidades que viram e ouviram na cidade.
Venâncio, graças aos seus instintos já treinados, sentiu que alguma coisa se
aproximava dali. Levantou-se e segurou com firmeza sua espingarda. Vieira
seguiu o olhar de Venâncio e procurou o que poderia estar alarmando o líder do
grupo.
Viu uma nuvem de
poeira aproximar-se com rapidez.
Ajeitou os
óculos redondos diante do nariz e se concentrou no intuito de entender o que
estava acontecendo. Venâncio relaxou ao ver que era Lampião que se aproximava
as pressas, ao contrário de Vieira.
O cachorro
chegou e começou a latir com ferocidade.
O cangaceiro não
entendeu a atitude do canino.
-Oxe Lampião! O
que é que tu quer?
E cachorro
latia, dando saltos e rodopios, sempre direcionando seu focinho para a direção
de onde viera. Vieira, sagaz como era, entendeu o que o animal estava tentando
repassar.
Segurou no ombro
de Venâncio com preocupação.
-Venâncio,
homem, vamo simbora!
-Que foi cabra?
-Oxe que Lampião
tá aqui, mas Branca num tá! Homem! Esse cachorro só larga a menina quando ela
tá tomando banho e mal! Fica vigiando a porta como quem diz que ninguém vai
chegá perto! Venâncio vamo simbora! Vai que o cachorro tá dizendo que Branca
foi levada!
-E num é que é
mermo! Chico das Pedas! – o robusto homem queimado pelo sol com um chapéu de
couro semelhante ao de Vieira se aproximou – Vá ligero até a casa de seu
Coronel Rodrigues dos Matos Alencar e diga que a menina que tinha prometido pra
casar com o sinhorzinho Miguel foi levada por Rainha!
-Sim sinhô!
-E ande cabra!
Vá mais rápido que chuva em seca!!! Cuide!!!
Chico das Pedas
subiu em seu cavalo e foi rápido cidade a dentro, levantando uma densa nuvem de
poeira.
-Vamo os homem!
Vamo atrás daquela cobra criada e tirá Branca daquele buraco do demônio!
Os homens
gritaram ao comando do líder e subiram em seus cavalos. A carreira foi uma só.
Lampião ia à frente, guiando fielmente os cangaceiros até a sua antiga morada.
O canino estava disposto a dar a vida por sua salvadora e amiga. Mesmo sem
palavras, Lampião dizia “Eu te amo” todas as vezes que deitava no colo de
Branca, à noite, quando a menina ia dormir. Amava-a mais que o próprio Miguel,
quase igual a Deus.
Em duas horas já
estavam diante das porteiras da fazenda Raio do Sol. As portas da casa estavam
bem guardadas por alguns jagunços de Rainha, todos empunhavam espingardas e
todos eles exibiam caras maldosas. Mas isso não intimidou Venâncio.
Ele levantou sua
arma para o alto e deu um tiro de aviso.
-Se num deixá
Branca ir simbora cum nois, tu vai levar sal grosso nos couro Rainha!!! –
gritou Venâncio – Ocê num vai saí viva nem que num queira se num deixá Branca
saí!!!
Os jagunços de
Rainha começaram a atirar nos cangaceiros, contudo esses já estavam acostumados
com os tiroteios e não arredaram o pé dali, em respostas atiravam nos jagunços.
Lampião aproveitou essa distração e se embrenhou pela jurema que contornava a
fazenda, para chegar sem ser percebido a porta dos fundos como sua dona lhe
ensinara.
O som das balas
atingindo as paredes da casa, de homens sendo atingidos e xingando a própria
sorte acordou Rainha de seu sono de beleza. Branca, que estava na cozinha
amarrada dentro de um armário, começou a gritar desesperadamente por ajuda.
Toinha, sentindo
um forte aperto no peito, libertou a menina. Branca abraçou sua mãe de criação
e decidiu ali mesmo que a levaria consigo para cozinhar para o bando de
Venâncio, Toinha aceitou sem pensar duas vezes. Nesse momento Lampião chegou
aos pulos, latindo forte para assustar que estivesse na cozinha.
Branca apertou o
amigo em seus braços, banhando o canino com suas lágrimas de alegria e estima.
O cachorro lambia o rosto da menina mostrando em seu linguajar o quanto estava
feliz em vê-la viva e bem.
Os três decidem
sair por trás da fazenda, mas era tarde.
Rainha chegou
repentinamente com mais três jagunços e prendeu Branca depois de muitas tapas
que Toinha deu em dois dos três jagunços. A negra caiu desmaiada no chão da
cozinha no momento em que um terceiro jagunço atingiu-a com o cabo da
espingarda na cabeça.
Branca chorou em
desespero.
-Mamãe!!! –
gritou a menina – Minha mamãe!!!
O mesmo
aconteceu ao Lampião.
-Lampião!!! – a
menina segura com firmeza uma panela e atinge a cabeça do jagunço que a
segurava.
CONTINUA...

Nenhum comentário:
Postar um comentário