terça-feira, 7 de maio de 2013

Branca de Fome - parte 5



Branca mostrou a língua a Rainha quando a mesma virou o rosto para frente. A menina temia que Venâncio não soubesse o que Lampião estava querendo demonstrar no momento em que o cão o encontrasse. Temia que não fosse salva e temia, ainda mais, ser vendida a um homem que desconhecia as mania e que se mostrava vulgar.
Rápido como um pé de vento Lampião encontrou o bando de Venâncio. Seu faro aguçado jamais lhe abandonara, principalmente nos momentos mais precisos como aquele. Ao ver o ancião de chapéu de couro escorado a um juazeiro e Venâncio sentado a sombra do mesmo partiu em disparada até ele.
Cada segundo era importante.
Lampião tinha que ser preciso e direto, se não sua amiga iria para longe e ele nunca mais a veria.
O resto dos homens conversava folgadamente sobre banalidades que viram e ouviram na cidade. Venâncio, graças aos seus instintos já treinados, sentiu que alguma coisa se aproximava dali. Levantou-se e segurou com firmeza sua espingarda. Vieira seguiu o olhar de Venâncio e procurou o que poderia estar alarmando o líder do grupo.
Viu uma nuvem de poeira aproximar-se com rapidez.
Ajeitou os óculos redondos diante do nariz e se concentrou no intuito de entender o que estava acontecendo. Venâncio relaxou ao ver que era Lampião que se aproximava as pressas, ao contrário de Vieira.
O cachorro chegou e começou a latir com ferocidade.
O cangaceiro não entendeu a atitude do canino.
-Oxe Lampião! O que é que tu quer?
E cachorro latia, dando saltos e rodopios, sempre direcionando seu focinho para a direção de onde viera. Vieira, sagaz como era, entendeu o que o animal estava tentando repassar.
Segurou no ombro de Venâncio com preocupação.
-Venâncio, homem, vamo simbora!
-Que foi cabra?
-Oxe que Lampião tá aqui, mas Branca num tá! Homem! Esse cachorro só larga a menina quando ela tá tomando banho e mal! Fica vigiando a porta como quem diz que ninguém vai chegá perto! Venâncio vamo simbora! Vai que o cachorro tá dizendo que Branca foi levada!
-E num é que é mermo! Chico das Pedas! – o robusto homem queimado pelo sol com um chapéu de couro semelhante ao de Vieira se aproximou – Vá ligero até a casa de seu Coronel Rodrigues dos Matos Alencar e diga que a menina que tinha prometido pra casar com o sinhorzinho Miguel foi levada por Rainha!
-Sim sinhô!
-E ande cabra! Vá mais rápido que chuva em seca!!! Cuide!!!
Chico das Pedas subiu em seu cavalo e foi rápido cidade a dentro, levantando uma densa nuvem de poeira.
-Vamo os homem! Vamo atrás daquela cobra criada e tirá Branca daquele buraco do demônio!
Os homens gritaram ao comando do líder e subiram em seus cavalos. A carreira foi uma só. Lampião ia à frente, guiando fielmente os cangaceiros até a sua antiga morada. O canino estava disposto a dar a vida por sua salvadora e amiga. Mesmo sem palavras, Lampião dizia “Eu te amo” todas as vezes que deitava no colo de Branca, à noite, quando a menina ia dormir. Amava-a mais que o próprio Miguel, quase igual a Deus.
Em duas horas já estavam diante das porteiras da fazenda Raio do Sol. As portas da casa estavam bem guardadas por alguns jagunços de Rainha, todos empunhavam espingardas e todos eles exibiam caras maldosas. Mas isso não intimidou Venâncio.
Ele levantou sua arma para o alto e deu um tiro de aviso.
-Se num deixá Branca ir simbora cum nois, tu vai levar sal grosso nos couro Rainha!!! – gritou Venâncio – Ocê num vai saí viva nem que num queira se num deixá Branca saí!!!
Os jagunços de Rainha começaram a atirar nos cangaceiros, contudo esses já estavam acostumados com os tiroteios e não arredaram o pé dali, em respostas atiravam nos jagunços. Lampião aproveitou essa distração e se embrenhou pela jurema que contornava a fazenda, para chegar sem ser percebido a porta dos fundos como sua dona lhe ensinara.
O som das balas atingindo as paredes da casa, de homens sendo atingidos e xingando a própria sorte acordou Rainha de seu sono de beleza. Branca, que estava na cozinha amarrada dentro de um armário, começou a gritar desesperadamente por ajuda.
Toinha, sentindo um forte aperto no peito, libertou a menina. Branca abraçou sua mãe de criação e decidiu ali mesmo que a levaria consigo para cozinhar para o bando de Venâncio, Toinha aceitou sem pensar duas vezes. Nesse momento Lampião chegou aos pulos, latindo forte para assustar que estivesse na cozinha.
Branca apertou o amigo em seus braços, banhando o canino com suas lágrimas de alegria e estima. O cachorro lambia o rosto da menina mostrando em seu linguajar o quanto estava feliz em vê-la viva e bem.
Os três decidem sair por trás da fazenda, mas era tarde.
Rainha chegou repentinamente com mais três jagunços e prendeu Branca depois de muitas tapas que Toinha deu em dois dos três jagunços. A negra caiu desmaiada no chão da cozinha no momento em que um terceiro jagunço atingiu-a com o cabo da espingarda na cabeça.
Branca chorou em desespero.
-Mamãe!!! – gritou a menina – Minha mamãe!!!
O mesmo aconteceu ao Lampião.
-Lampião!!! – a menina segura com firmeza uma panela e atinge a cabeça do jagunço que a segurava.

CONTINUA...

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