terça-feira, 7 de maio de 2013

Branca de Fome - Parte Final


Branca pega rapidamente Lampião no colo e corre para fora da fazenda, descalça, pisando na jurema e ferindo seus pés cheios de calos. Ela corria sem importar com a dor, queria fugir com o seu cachorro, que tanto amava. Ao olhar para trás viu que estava sendo seguida pelos mesmos homens que machucaram Toinha e Lampião.
A moça apertou o passo e não cessou a corrida.
Os homens vinham a galope e aceleravam.
Enquanto isso as balas eram trocadas na frente da fazenda. Jango chegara com os reforços para Venâncio. Trazia consigo mais dez homens, sem contar com o Coronel e seu filho, Miguel Lourival.
Mal desceram dos cavalos começaram a disparar contra a fazenda.
-ATIREM!!! – gritou o Coronel – Eu num quero um cabra desse vivo antes do almoço!!! Matem tudim!!!
Nesse instante Rainha surgiu na sacada, ela carregava outra espingarda e atirava contra o Coronel.
-Ocê tá pensando que é quem pra chegar na minha propriedade e atirá a torto e a direito!!! – gritou Rainha.
-Cale a boca sua jararaca!!! Ocê tá cum a muié que meu fí quer pra casar!!! Liberte ela ligero!!!
E as balas não paravam. Dois homens de Rainha já estavam mortos, enquanto Ariovaldo estava com a perna baleada. Miguel aproximou-se do pai com um revolver empunhado e atirando.
-Pai! Cadê Branca?!
-Parece que tá lá dentro!
-Pois eu vô buscar ela é agora!!! – gritou o rapaz.
-Nem pensá!!! – gritou Vieira.
-Oxe e por quê? É a muié que eu amo!!!
-Ela tá é ali! – Vieira aponta para um corpo magrinho correndo carregando um pequeno corpo nos braços e com três homens a cavalo em seu encalço. Miguel correu para seu cavalo e montou, Vieira e Venâncio fizeram o mesmo para ajudar o rapaz em seu intento.
Ao olhar novamente para trás Branca caíra, pois tropeçara numa pedra e machucara o seu dedão. Lampião fora lançado um pouco mais frente, rolando na terra seca, fazendo poeira subir. Ela chora e se arrasta até o amigo com as poucas forças que lhe restava. Branca abraça o amigo, que acordara milagrosamente e logo se pusera na defesa de sua amiga. O cão latia contra os cavalos, assustando-os e afastando-os o quanto podia de Branca. Um dos jagunços ergueu uma pistola e mirou no cachorro.
Branca vira e se colocara no caminho.
-Não!!! – ela gritara com os olhos fechados, abraçando Lampião e dando as costas ao jagunço.
Ela ouviu um tiro.
Pensou que era para si, mas na verdade foi para o jagunço que levantara a pistola e mirara em seu cachorro. Com olhos marejados e vermelhos, Branca viu o corpo despencar do cavalo enquanto o animal corria as pressas para longe do atirador, assustado com o barulho da bala. A moça vê uma batalha travar-se diante de si.
Miguel ao ver um homem apontar uma pistola contra o cachorro de Branca apertou ainda mais o passo, fazendo o cavalo quase voar sobre a terra rachada. Então sua visão foi assombrada por uma cena: Branca coloca-se no caminho da bala abraçando Lampião no desejo de salvá-lo da morte. Miguel se desespera e atira inconscientemente no jagunço, amedrontando o cavalo e matando o homem.
Venâncio e Vieira começam a atacar os outros dois jagunços para que Miguel pudesse chegar até Branca e salvá-la.
-Venha Branca! Vamo simbora daqui! – Miguel desce do cavalo e pega a moça nos braços, colocando-a em seguida sobre o eqüino.
-Lampião! Num se esqueça de Lampião!!!
Miguel pega o cão com cuidado e coloca-o sobre o colo de Branca. O canino é recebido aos mimos e são todos retribuídos a menina através de calorosas lambidas. O rapaz volta aos galopes à fazenda Raio de Sol, pois Venâncio e Vieira conseguiram eliminar os outros dois jagunços. Todos se reuniram, no fim do tiroteio, na varanda quase destruída de Rainha.
João e Jango foram buscar Toinha depois de muita insistência de Branca. Rainha e seus jagunços foram todos mortos na contenda. Branca estava salva e estava sendo cuidada por sua mãe de criação.
Lampião foi considerado o grande herói de toda a história.
-Eu num tô lhe dizendo, homem, que o cachorro foi atrás de nois pra dizer que Branca tinha sido levada!!! – repetia Ariovaldo, com a perna enfaixada, sentado na varanda – Num foi não Nhô Venâncio?
-Ora se num foi?! O sinhô Coronel ainda duvida?
-Pois eu tô precisando dum cachorro desse! – brincou o Coronel.
Todos riram da brincadeira.
Lampião fora agraciado com todos os mimos que sua dona e amiga poderia lhe dar. Variando entre afagos e beijos. Toinha agradecia a todos os anjos e santos do céu por ver sua filha do coração sã e viva.
O Coronel aproximou-se devagar de Branca, ajeitando seu chapéu branco sobre a cabeça e exibindo seu melhor sorriso. Perto de si trazia Miguel, que vinha com os braços atrás do corpo e pouco de timidez. Branca viu o rapaz e o puxou pela mão para mais perto de si, ao ponto de que conseguira dar um leve beijo nos lábios trêmulos do rapaz. Toinha se levantou devagar, com as mãos na cintura, colocando-se entre Branca e Miguel, se mostrava desconfiada, olhando pelo canto do olho para o rapaz. Acanhado Miguel voltou para perto do pai.
-Quais é suas intenções? – resmungou Toinha.
O Coronel respondeu pelo filho.
-Meu filho casar cum sua fia! Desde o dia que levou uma baldada dela na cabeça que ele não esquece essa menina!
-Hum...! Num sei não!
-Minhas intenções são boas! – prontificou-se Miguel – Eu só quero dá a vida que Branca nunca teve na vida! Dá de comer, de beber, o que vestir, um lugá bom pra morar e proteção!
-Se Branca quisé... – disse Toinha voltando aos curativos dos pés da menina – Ocê casa! Mas tem que levá eu junto!
-Eu levo! Eu levo! Se Branca quisé eu como seu esposo...
-Eu quero! – disse Branca colocando-se de pé.
Miguel abraçou a moça e outro beijo, dessa vez mais demorado, foi trocado pelo casal. Os cangaceiros urraram de alegria juntamente com os jagunços do Coronel. Branca impôs ainda mais duas condições para se casar com Miguel: primeiro, Lampião iria com ela e seria seu cão de guarda, segundo, os cangaceiros seriam seus guarda-costas pessoais.
O Coronel aceitou ambas as condições.
Todos foram a galope para a fazenda do Coronel organizar o casamento de Branca com Miguel. Alguns tiveram que dividir os cavalos entre duas pessoas, pois Toinha foi também.
-Mas me diga meu filho – o Coronel chegou perto, com seu cavalo, do cavalo cuja Branca, Miguel e Lampião iam montados – Cuma é o nome dessa moça? Por que ocê sabe que ela tem que assinar um documento.
Miguel nem precisou responder. Sua noiva se ocupou com isso.
-Ora seu Coronel! Nome eu num sabia não, mas agora eu sei!
-E qual é?
-Branca!!!

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