Branca pega
rapidamente Lampião no colo e corre para fora da fazenda, descalça, pisando na
jurema e ferindo seus pés cheios de calos. Ela corria sem importar com a dor,
queria fugir com o seu cachorro, que tanto amava. Ao olhar para trás viu que
estava sendo seguida pelos mesmos homens que machucaram Toinha e Lampião.
A moça apertou o
passo e não cessou a corrida.
Os homens vinham
a galope e aceleravam.
Enquanto isso as
balas eram trocadas na frente da fazenda. Jango chegara com os reforços para
Venâncio. Trazia consigo mais dez homens, sem contar com o Coronel e seu filho,
Miguel Lourival.
Mal desceram dos
cavalos começaram a disparar contra a fazenda.
-ATIREM!!! –
gritou o Coronel – Eu num quero um cabra desse vivo antes do almoço!!! Matem
tudim!!!
Nesse instante
Rainha surgiu na sacada, ela carregava outra espingarda e atirava contra o
Coronel.
-Ocê tá pensando
que é quem pra chegar na minha propriedade e atirá a torto e a direito!!! –
gritou Rainha.
-Cale a boca sua
jararaca!!! Ocê tá cum a muié que meu fí quer pra casar!!! Liberte ela
ligero!!!
E as balas não
paravam. Dois homens de Rainha já estavam mortos, enquanto Ariovaldo estava com
a perna baleada. Miguel aproximou-se do pai com um revolver empunhado e
atirando.
-Pai! Cadê
Branca?!
-Parece que tá
lá dentro!
-Pois eu vô
buscar ela é agora!!! – gritou o rapaz.
-Nem pensá!!! –
gritou Vieira.
-Oxe e por quê?
É a muié que eu amo!!!
-Ela tá é ali! –
Vieira aponta para um corpo magrinho correndo carregando um pequeno corpo nos
braços e com três homens a cavalo em seu encalço. Miguel correu para seu cavalo
e montou, Vieira e Venâncio fizeram o mesmo para ajudar o rapaz em seu intento.
Ao olhar
novamente para trás Branca caíra, pois tropeçara numa pedra e machucara o seu
dedão. Lampião fora lançado um pouco mais frente, rolando na terra seca,
fazendo poeira subir. Ela chora e se arrasta até o amigo com as poucas forças
que lhe restava. Branca abraça o amigo, que acordara milagrosamente e logo se
pusera na defesa de sua amiga. O cão latia contra os cavalos, assustando-os e
afastando-os o quanto podia de Branca. Um dos jagunços ergueu uma pistola e
mirou no cachorro.
Branca vira e se
colocara no caminho.
-Não!!! – ela
gritara com os olhos fechados, abraçando Lampião e dando as costas ao jagunço.
Ela ouviu um
tiro.
Pensou que era
para si, mas na verdade foi para o jagunço que levantara a pistola e mirara em
seu cachorro. Com olhos marejados e vermelhos, Branca viu o corpo despencar do
cavalo enquanto o animal corria as pressas para longe do atirador, assustado
com o barulho da bala. A moça vê uma batalha travar-se diante de si.
Miguel ao ver um
homem apontar uma pistola contra o cachorro de Branca apertou ainda mais o
passo, fazendo o cavalo quase voar sobre a terra rachada. Então sua visão foi
assombrada por uma cena: Branca coloca-se no caminho da bala abraçando Lampião
no desejo de salvá-lo da morte. Miguel se desespera e atira inconscientemente
no jagunço, amedrontando o cavalo e matando o homem.
Venâncio e
Vieira começam a atacar os outros dois jagunços para que Miguel pudesse chegar
até Branca e salvá-la.
-Venha Branca!
Vamo simbora daqui! – Miguel desce do cavalo e pega a moça nos braços,
colocando-a em seguida sobre o eqüino.
-Lampião! Num se
esqueça de Lampião!!!
Miguel pega o
cão com cuidado e coloca-o sobre o colo de Branca. O canino é recebido aos
mimos e são todos retribuídos a menina através de calorosas lambidas. O rapaz
volta aos galopes à fazenda Raio de Sol, pois Venâncio e Vieira conseguiram
eliminar os outros dois jagunços. Todos se reuniram, no fim do tiroteio, na
varanda quase destruída de Rainha.
João e Jango
foram buscar Toinha depois de muita insistência de Branca. Rainha e seus
jagunços foram todos mortos na contenda. Branca estava salva e estava sendo
cuidada por sua mãe de criação.
Lampião foi
considerado o grande herói de toda a história.
-Eu num tô lhe
dizendo, homem, que o cachorro foi atrás de nois pra dizer que Branca tinha
sido levada!!! – repetia Ariovaldo, com a perna enfaixada, sentado na varanda –
Num foi não Nhô Venâncio?
-Ora se num
foi?! O sinhô Coronel ainda duvida?
-Pois eu tô
precisando dum cachorro desse! – brincou o Coronel.
Todos riram da
brincadeira.
Lampião fora
agraciado com todos os mimos que sua dona e amiga poderia lhe dar. Variando
entre afagos e beijos. Toinha agradecia a todos os anjos e santos do céu por
ver sua filha do coração sã e viva.
O Coronel
aproximou-se devagar de Branca, ajeitando seu chapéu branco sobre a cabeça e
exibindo seu melhor sorriso. Perto de si trazia Miguel, que vinha com os braços
atrás do corpo e pouco de timidez. Branca viu o rapaz e o puxou pela mão para
mais perto de si, ao ponto de que conseguira dar um leve beijo nos lábios
trêmulos do rapaz. Toinha se levantou devagar, com as mãos na cintura,
colocando-se entre Branca e Miguel, se mostrava desconfiada, olhando pelo canto
do olho para o rapaz. Acanhado Miguel voltou para perto do pai.
-Quais é suas
intenções? – resmungou Toinha.
O Coronel
respondeu pelo filho.
-Meu filho casar
cum sua fia! Desde o dia que levou uma baldada dela na cabeça que ele não
esquece essa menina!
-Hum...! Num sei
não!
-Minhas
intenções são boas! – prontificou-se Miguel – Eu só quero dá a vida que Branca
nunca teve na vida! Dá de comer, de beber, o que vestir, um lugá bom pra morar
e proteção!
-Se Branca
quisé... – disse Toinha voltando aos curativos dos pés da menina – Ocê casa!
Mas tem que levá eu junto!
-Eu levo! Eu
levo! Se Branca quisé eu como seu esposo...
-Eu quero! –
disse Branca colocando-se de pé.
Miguel abraçou a
moça e outro beijo, dessa vez mais demorado, foi trocado pelo casal. Os
cangaceiros urraram de alegria juntamente com os jagunços do Coronel. Branca
impôs ainda mais duas condições para se casar com Miguel: primeiro, Lampião
iria com ela e seria seu cão de guarda, segundo, os cangaceiros seriam seus guarda-costas
pessoais.
O Coronel
aceitou ambas as condições.
Todos foram a
galope para a fazenda do Coronel organizar o casamento de Branca com Miguel.
Alguns tiveram que dividir os cavalos entre duas pessoas, pois Toinha foi
também.
-Mas me diga meu
filho – o Coronel chegou perto, com seu cavalo, do cavalo cuja Branca, Miguel e
Lampião iam montados – Cuma é o nome dessa moça? Por que ocê sabe que ela tem
que assinar um documento.
Miguel nem
precisou responder. Sua noiva se ocupou com isso.
-E qual é?
-Branca!!!
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